sábado, 29 de março de 2008

Uma idéia-fixa solta


A percepção me fazia insone, eu fazia traços, que me traziam riscos, dei por me esquecer. Tudo se tornara escuro, tal a noite. Lembrei certo momento, mas foi rápido, nem deu pra perceber. Observei alguns cantos do quarto, da memória; papéis riscados, tantos em minha mesa. Havia uma mosca, me desviou a atenção, quase esqueci que havia esquecido. Era um assombro, antes pouco notava. Mas aquilo ainda estava ali, em algum canto, não do quarto, da memória.

Ouvi certa vez algo parecido, um garoto, desses que se vê aos montes em qualquer canto, havia esquecido onde estava. Certo momento lembrou o que era, tentou concertar, mas esqueceu novamente e voltou refletir. Era tal qual minha dúvida, só que muito mais trágico, porém menos enlouquecedor: eu sei do que esqueci. Nesse momento, com o bico de uma caneta que havia na mesa eu risquei, fiz uma linha, mas logo me recompus: amassei, joguei fora. Não podia ser assim, primeiro era idéia, depois era a frase, depois eram os riscos; só pode ser assim. Mas foi uma tentativa.

Esperei horas, não desistiria, a idéia tinha sido boa. Disso me lembrava. Lembrava também que era sobre alguma coisa concreta, algo político, talvez artístico. Vi em pensamento também que no exato instante que fui fazer os riscos, me esqueci. Maldita idéia. Boa idéia seria se todos os bons pensamentos não precisassem ser escritos, já se concretizassem ali, dentro de um papel, no instante em que a lâmpada da idéia se acendesse em nosso espírito. Se ao menos tivesse ido dormir. Cedo. Como era de se esperar.

Continuava ali, à cata da idéia que havia fugido, pô-la-ia no papel rapidamente, em riscos rápidos, um rascunho. Depois arrumaria, ajuntaria palavras secas, para dar uma narrativa mais eficaz e prazerosa. Se algum prazer pode dar palavras secas. Refleti sobre isso, já era custoso refletir. Quase amanhecia. Indignei-me, era a ultima chance, os últimos instantes. Dei a mim mais dez minutos, se nada resolvesse parte de mim iria dormir, outra parte sonharia com a idéia perdida. Se viesse em tal sonho, acordaria, e, enfim, pô-la-ia novamente: no papel. O papel, notei estava cheio de riscos, mas nada concreto. Peguei outro, faltavam dois minutos. Já colocava na caneta sua tampa. Faltando segundos dei em guardar o papel sem rabiscos. Levantei, fui pra cama.

Deitado aquilo ainda fulminava meus pensamentos, aonde diabos havia ido parar tal idéia? Não ia dormir, talvez nunca mais, a idéia havia sido boa. Tormento, angústia. Maldição! Exclamei certo momento. Mas já ia me acalmando, os olhos fechando, não pensava mais em idéia. Talvez amanhã, outro dia. Foi de novo a maldição, dessa vez não exclamei. Abri os olhos, como quem ouve grande estouro. Levantei, corri ao papel. A caneta, onde estava a caneta? Me perguntei. Estava ali, na mesa, mas fechada. Irritei-me por tê-la fechado. Havia lembrado, não podia esquecer. Abri a caneta, tremendo. Me pus a escrever. Parei. Qual era a idéia?

quinta-feira, 27 de março de 2008

Um passeio pela biblioteca


Era um dia nublado, saí de casa com a certeza de que não choveria, porém se chovesse eu estaria abrigado, num lugar deserto, de calma e silêncio. Já havia perdido a soma dos dias em que habitava sozinho a paz daquela biblioteca, ouvindo as vozes vindas da rua, o motor dos carros, toda a vida lá fora. As prateleiras com sua infinidade de volumes me traziam uma existência eterna, havia um mundo de relatos de amor, ódio, loucura, dramas, romances bobos, histórias infantis. Eu sentia, aquele era meu mundo.
Da fachada daquela casa antiga, tão histórica quanto seus livros eu me vi em seus cantos; por quantas vezes havia preenchido a solidão de minha adolescência com páginas repletas de vidas passadas? Perguntei a mim mesmo, como era de costume. Ali dentro olhava cada volume, sabia de cor o que havia em muitos deles, alguns já fugiam de minha fraca memória, alguns se encenavam na minha frente como a morte de Werther em seu amor infinito por Carlota, a espera interminável de Florentino Ariza por sua amada Firmina, ou o desespero de Raskolnikov por seu Crime e seu Castigo, eram muitas as cenas, de histórias fantásticas, de pensamentos sufocantes. O sol já se punha lá fora, não pude ver, porém o fechar das janelas era o sinal de que a biblioteca seria fechada; eu deveria ser rápido, escolher algum volume que saciasse minha insônia.
Eu revistava cada prateleira, todas elas me ofertavam suas dezenas de histórias, novelas, contos. Cada prateleira trazia dezenas de países, de tradições, de costumes, de acontecimentos tão distintos. Ali era possível visitar a Colômbia de García Márquez, a Rússia de Dostoievski e Tolstói, a Portugal de José Saramago ou se ater ao nosso país, em nosso maior escritor, Machado de Assis. Lembro ter devotado grande parte de minha adolescência a esse último. Machado de Assis era a complexidade do pensamento, a construção genial de uma narrativa, a fantasia, a realidade, o que temos de melhor. Decidi, era ele o escolhido, mas não sabia qual deles, já havia lido quase todos. Faltava Iá Iá Garcia, peguei esse.
Na recepção, junto à bibliotecária, relembrei da solidão daquela casa antiga. Havia público ali sim, a maioria para consultar algum autor, jovens fazendo trabalho escolar. A cidade era grande, no entanto quantos já foram ali emprestar pelo menos um livro? Refleti sobre o caráter deserto de uma biblioteca, eram poucos que sentiam o mesmo, que freqüentavam aquela casa e viam as histórias se exibirem diante de seus olhos. Olhei para o livro de Machado de Assis, cem anos sem suas palavras. Olhei para aquela biblioteca, quantos anos eu queria viver para ler todas essas histórias.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Alberto Dines - Manual Lula de Jornalismo

Como esconder notícias ruins ou transformá-las em boas

"A imprensa só publica notícia ruim", declarou em improviso o presidente Lula na terça-feira (5/12), em cerimônia oficial no Palácio do Planalto. E acrescentou maliciosamente que notícia ruim deve ser um bom negócio, já que é veiculada com tanta freqüência (título principal da pág. A-10 da Folha de S.Paulo de quarta, 6/12). Naquele mesmo dia o "apagão aéreo" viveu o seu momento culminante.
Como já foi dito neste Observatório, devemos louvar a Divina Providência por não ter permitido que Lula da Silva estivesse incumbido naquele dia de algum trabalho jornalístico. Caso contrário, no seu jornal/rádio/TV a notícia do caos nos aeroportos jamais teria sido publicada. Mesmo que testemunhada e vivenciada por milhares de brasileiros nos principais aeroportos do país.
Lula não precisa ser jornalista, há jornalistas dispostos a eliminar as notícias ruins dos respectivos veículos sem qualquer cerimônia. Ou simplesmente transformá-las em notícias favoráveis.
Exatamente isso aconteceu com a matéria de capa da última CartaCapital (13/12, págs. 26-31): o bravo semanário seguiu o "Manual Lula de Jornalismo" e conseguiu o milagre de converter a débâcle no tráfego aéreo brasileiro motivada pela tragédia do Boeing da Gol em mera "turbulência política" atiçada pela "nostalgia golpista" de setores civis e militares.
Segundo a revista, o apagão aéreo não existe (foi invenção da oposição logo encampada pela mídia), assim também a operação-padrão iniciada pela minoria de civis que trabalha como controladores de vôo.
A idéia central da reportagem é comprovar que a "proposta de desmilitarização da aviação civil acirra os conflitos entre o Ministério da Defesa e a Aeronáutica". Mas o que tem sido divulgado pelo próprio governo é justamente o contrário: o comando da Aeronáutica aceita o controle civil do trafego aéreo ficando com os militares a defesa do espaço aéreo.
Gabinete de crise
De acordo a mesma matéria, o desempenho do ministro Waldir Pires à frente do Ministério da Defesa, tem sido impecável. Inclusive na condução da crise da Varig e a sua solução através das forças do mercado, apesar dos "traumas para milhares de trabalhadores".
Nenhuma palavra sobre o trauma sofrido pelos trabalhadores que operavam a torre de Brasília na hora da colisão entre o Boeing e o Legacy. Nem sobre a sua responsabilidade no acidente devido às precárias condições de trabalho.
Antes mesmo da decisão judicial que permitiu a devolução dos passaportes dos pilotos do Legacy, a revista é taxativa ao constar que o desastre resultou da "convergência da má sorte com a irresponsabilidade dos dois pilotos americanos".
A decisão de entregar à ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, a organização de um "gabinete de crise" para monitorar a situação no setor aéreo foi transformada numa boa notícia para o ministro da Defesa: segundo a revista, ele deverá coordenar os trabalhos. O noticiário emanado do governo afirma o contrário: a ministra Dilma Rousseff será a gerenciadora do grupo.
Não aprovaria
Waldir Pires merece o respeito dos brasileiros pela sua biografia política (que ocupa grande parte da reportagem), mas esta dívida não pode ser paga através da manipulação de informações em assunto de tamanha gravidade.
Em matéria de pagamento, aliás, a CartaCapital não pode se queixar: nesta edição, do total de 33 páginas pagas ou permutadas (24 de anúncios e nove de um caderno especial), 19 (cerca de 57%) saíram do bolso do contribuinte (as nove do caderno especial pago pelo BNDES e dez por outras empresas públicas, entre elas o Banco do Brasil, Petrobras e Correios).
Esse é um tipo de jornalismo que Lula, o crítico de mídia, certamente não aprovaria. Mesmo sendo o seu beneficiário.

Por Alberto Dines em 12/12/2006

Fonte: Observatório da Imprensa