quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Uma grande frase



"Navegar é preciso. Viver não é preciso."

Foi no primeiro dia da aula de Sociologia, na faculdade, que ouvi alguém falar com entusiasmo sobre a frase de Fernando Pessoa. Com gestos eufóricos e um tanto engraçados, o mestre Carlão, tentava nos passar a grandiosidade do verso que dá título a este texto. Não sei, talvez devido ao tempo que passou, se refleti sobre o que ele dizia ou se me ative a sua interpretação, tão esfuziante que quase levou todos os alunos a fazerem mau juízo de sua sanidade. Os poucos que não viram loucura também deviam sofrer da mesma patologia, e eu me incluía nesse grupo. Dada a aula, demorei muito tempo para voltar àquela noite. A aula, junto à frase dormiam em meio a tantas outras lembranças peculiares e fundamentais à minha formação intelectual repleta de insanidades.

Mas vamos ao verdadeiro motivo da lembrança, a qual deve ter me acossado numa noite de insônia. Somente quando me demoro a dormir tenho lampejos de reflexão e inteligência. A frase era a mesma do subtítulo: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.Há muito, antes da aula decerto, tentava descobrir qual era a “precisão” a que se referia Fernando Pessoa. Cheguei ao absurdo de crer que o poeta preferia navegar a viver. Entendi-o como um tolo: uma heresia. Fernando não era tolo, muito menos meu professor, eu o era.

Uma luz de bom-senso alumiou a escuridão de toda minha ignorância, por alguns instantes, é claro. Navegar era preciso, não como uma essência superior à vida, mas algo mais simples, certeiro. A exatidão permeia os navegantes, destemorosos do erro a lhes custas a vida. Já viver, não. Quais os passos, as ações humanas que são precisas, exatas como o vôo do passaro, fiéis como o tic-tac do relógio. Viver era a interpretação de meu mestre, o espanto de uns e a felicidade de outros tantos.

Hoje, vejo não ser tão obvia essa interpretação. Os próprios versos da seqüência comprometem meu pensamento. Espero não fazer mau juízo do poeta. É apenas uma ingênua forma de entender o poeta, a frase e a vida. A todos não espero uma forma precisa de viver, mas os autos e baixos, as loucuras de uma noite e o descanso do amanhecer. Viver de uma forma precisa é negar o choro e não sentir, assim, falta das alegrias.

sábado, 2 de agosto de 2008

Entre amigos

Não sei divisar o momento exato que passei a entender, ver ou sentir. A presença costumeira fazia parte da rotina, dos atos comuns do dia-a-dia às alegres festas aos finais de semana. Era uma sombra calma, porém por vezes tempestuosa. As discussões, os ataques momentâneos de raiva e de temor viviam lado a lado a um amor não dito, no entanto sentido. Éramos todos bons amigos. As horas vividas eram comuns: as velhas brigas, as mesmas discussões, as partidas alegres de futebol, as cervejas geladas após a escola. Não havia momento em que não tivéssemos um ombro amigo à nossa espera, uma voz calma, uma sabedoria inventada, criada para sanar a dor do amigo. Nossos passos até então seguiam juntos, unidos pela vontade comum. Logo chegariam ao fim as longas horas, os dias vazios ou cheios de desventuras, os meses eternos, os anos intermináveis de alegria e dor.

Um dezembro feliz, férias eternas de todo o infindável ensino básico. Despedíamo-nos das salas, do pátio, da cantina, dos funcionários, dos professores. Mas havia um laço difícil de ser quebrado: os amigos. Ninguém sabia ao certo o que iria ser. Quem sabe o tempo afugentasse eternamente as lembranças dos colegas, de todo mundo. Quem sabe viveríamos até o fim a roda com violão, cerveja e ideologias adolescentes. Foi um tempo incerto. A rotina de casa para escola se tornara a rotina do quarto para a sala. Os amigos eram agora virtuais. Chego a lembrar de Werther, em seus sofrimentos, mandando cartas a seu amigo Wilhelm, reunidas no fabuloso livro de Goethe. Nos escritos lhe contava de suas alegrias, seus amores, suas tristezas. Mas a nós, nem mesmo a beleza da escrita fora legada. Lembro de Novembro, Flaubert em seus devaneios de solidão e de amor por mulheres desconhecidas. Era um vazio.

Hoje, quase quatro anos após o fim daquelas aulas, não sei precisar o que se deu. Os amigos, guardo alguns, talvez estes com correntes eternas. Novos rostos aparecem, somem, outros parecem resistir ao tempo. Certo dia tentei ver qual a vida humana que não precisasse de tal coisa, simples até. Percorri os dias da semana, não havia um em que eles não estivessem. A morte de Rémy, em As Invasões Bárbaras, retrata o fim junto a eles. Cercado por amigos da faculdade, por sua esposa e seu filho, o homem vivia seus últimos momentos relembrando os vinhos que beberam, os lugares por que passaram, as idéias que tiveram. Os sabores, os aromas, as paisagens, pouca coisa teria importância se não fosse compartilhada. Os sentimentos devem ser ditos e compreendidos, disto vem o prazer da companhia.

Andar pelas ruas da cidade, tão vistas e sentidas pelo passar dos anos, nos remete a um tempo em que caminhar era a diversão, correr era a loucura. Cada rua em torno daquela escola nos traz imagens, sons, gestos, muitos destes ingênuos e vulgares até. Chego a reencontrar, em lugares comuns, amigos, inimigos, tantos que antes preenchiam minhas horas, reprimiam meu tédio de adolescente. Alguns me reconhecem, outros tantos vivem cegos. Partilho agora, com os bons amigos que restaram, o pouco que sobra para compartilharmos: um bom dia, um abraço, a boa sorte, muito obrigado!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

As drogas artísticas, a droga social

Meus primeiros contatos com as drogas foram artísticos, de modo indireto. Na música eram os vocalistas, os guitarristas, todos os integrantes de bandas cultuadas por milhares de jovens tão chatos e bobos quanto eu. Era a rebeldia que justificava o uso indiscriminado de qualquer substância que os fizesse sair deste mundo de sonhos inalcançáveis, de injustiças sociais, qualquer uma das milhares de desgraças da condição humana. Logo em seguida foram os livros, as obras ensaiavam a droga comum, o uso cotidiano e inquestionável dos somas (Admirável Mundo Novo), doces maravilhosos para uma sensação momentânea de calma e tranqüilidade, longe de toda a miséria. Após a arte veio a vida.

Nunca pude alcançar, em minha adolescência, tudo que nos seguia nestes atos ingênuos. Achávamo-nos loucos, admiráveis, diferentes. Ser diferente, em si é o grande sonho de todo jovem. Saímos, enchíamo-nos destes prazeres fugazes, comprados com alguns trocados dados por nossos pais. As sombras de nossas ações estavam ali, à nossa espreita. Tudo que fazíamos era coisa simples, mas marcaria de terror nossa memória nos dias vindouros. Sentados em bancos de praças, lugares sujos, não eram perceptíveis os enganos sucessivos que a ingenuidade adolescente nos trazia. As brigas, os choros, nossos lamentos, os sofrimentos de nossos pais. Certos momentos, parecíamos imunes à dor. Entretanto as lágrimas molhavam nossa face e borravam a maquiagem boba dessa idade triste.

Eram histórias de outros. Eram o que ouvíamos de nossos pais sobre familiares, amigos, alguns tão próximos que até mesmo a insensibilidade era atingida. Mortes, prisões, clínicas de reabilitação. Lá fora, era algo incabível: haveria tanta miséria assim nesse mundo sombrio? Aqui dentro ainda era algo fantástico, gostoso de ser sentido, de prazeres intensos, valeria a pena continuar. Não divisei ao certo o momento em que tudo começou a pesar. Os motivos, é claro, não eram os comuns. Não dei pela vida triste de um usuário, pela morte pecaminosa, pelas celas frias e sem o carinho de nossos pais. Dei pelo comum. Foi o comum que passei a ver. E foi o mesmo comum que encheu de tédio uma vida que horas antes era prazer. As ruas, as praças, tudo era manchado. Eram rostos novos, rostos antigos, gestos iguais, repetidos. A repetição esfaqueava meu peito, a banalidade aterrorizava meu espírito inquieto. Passei a odiar. Como um adolescente, que desejava ao máximo ser incomum, vivia a homogeneidade de gestos tão banais. Todos faziam o mesmo, viviam pelo mesmo. Era a minha morte.

Todo homem enxerga o grande problema social causado pelas drogas. Elas vivem em ruas, praças, casas, bares. Vivemos junto a ela. Não me faz mais efeito ver um jovem, na idade que tinha tempos atrás, viver por ela. O consumo é algo particular. É a produção e o percurso até o seu final o que nos trás o horror. O tráfico, o roubo, as milhares de mortes não valem o preço que se paga, não valem o prazer momentâneo. As sensações são fugazes, as vidas envolvidas também as são. Não me cabe prever o fim disso tudo, nem julgar a breve satisfação da mente inquieta. Enoja-me o senso-comum. Nossa vida segue um roteiro: as incógnitas, as insatisfações, o comum, a morte. Em toda a história permanecem as sombras de nossos atos mundanos, e em todo roteiro estas sombras nos perseguirão.

http://br.youtube.com/watch?v=bY8WhANmXNo



terça-feira, 15 de julho de 2008

O que é viver


Já me é dificultoso ouvir a canção dos dias e das madrugadas. Não sinto o tato, não vejo os lugares em que vagueiam meus olhares. Sou agora como o homem que não percebe o ato mecânico de viver. O mesmo céu, a mesma terra, os homens bons, as velhas histórias: todos se cansam de meus tão sonhados passos.

Era um menino pouco tempo atrás. Sonhava com amores vindos da vida e por ela idos. Não havia boca, nem mesmo corpo que meus lábios não tocassem. Eram os sonhos. Os sabores distintos, criados pelos homens, enchiam meu espírito de uma vida não sabida. Haveriam ainda terras, cidades encantadas, lugares onde os homens mal sabiam existirem.

Vivo feito morto, cego a tudo, sem braços nem pernas, surdo às canções que sonhara existirem. Andar às ruas é sem sabor, os lábios de uma deusa são como plástico, livres dos sabores adocicados de outrora. O que irá agora preencher os dias não vividos desta vida?

Julguei ter amado o céu, amei e odiei os homens desta terra. Li seus livros, vi suas encenações, enchi da mais pura beleza as horas que agora passam entediantes. Quem dera ser um Fausto, rendido ao desejo de ser a sabedoria e o conhecimento, e ainda assim subir aos céus; redimido de pecados e conhecedor de toda a vida.

Os desígnios traçados me ferem a alma, como hei de ferir o coração da mulher amada. Faltam-me os sonhos de outros tempos, faltam as doçuras desta vida. Desejo o gesto ingênuo do adolescente, em sua busca amarga por respostas. Sonho agora com as brincadeiras daquelas tardes, que traziam o sorriso ao rosto triste desta criança.

Um voto mais honesto

A mulher refletia há alguns minutos. Parada ela olhava para cima, logo depois descia, avaliava seu sapato novo, seu jeans que acabara de sair da loja. Sua vida havia mudado. Era nisso que pensava. Sem dúvida essas eleições foram as que deram os melhores frutos a ela. Lembrava da cesta básica, da TV - que não era 29 polegadas, mas podia transmitir a novela – havia também a bicicleta de seu filho, o emprego de sua filha. Junto a isso o liquidificador, as prestações atrasadas da geladeira nova, as contas pagas. Ela sorriu ao lembrar das onze coisas que conseguira arrancar de onze, dos doze candidatos a vereador de sua cidade.
Dona Maria, como era conhecida em seu bairro, era uma mulher honesta, trabalhava de doméstica para poder sustentar seus nove filhos. Filhos que colaboraram muito na conquista de todos esses presentes acima. A mulher estava feliz com tudo isso, mas algo a incomodava muito: o décimo segundo candidato, esse não a subornou. Bem que ela havia tentado, foi em sua casa, expôs os 11 votos que ele conseguiria se desse a ela um fogão novo, mas nada. Sem desistir diminuiu a exigência, o gás do mês, isso ele não poderia negar, porém o homem recusou novamente. Irritada, a mulher se pôs a xingar, armou um barraco, sentiu-se ofendida, não adiantou. Ela pensava nisso, ali, de frente para aquela máquina com teclas de 0 a 9, com um “confirma”, um “corrige” e um “branco”.
Mudando o apoio de uma perna para outra, a mulher, voltou ao passado, bem antes de ter se vendido a políticos inescrupulosos e normais. Ela lembrou de sua vida sofrida, da fome de seus filhos, do quanto seu marido trabalha para colocar menos de um salário mínimo dentro de casa. Ela viu a cena, uma lágrima invadiu seu rosto seco e coberto de rugas de idade e de sofrimento. Não queria só aqueles presentes momentâneos, queria uma vida e isso aqueles onze ordinários não prometeram a ela. Era o momento de se decidir, a fila para a votação já estava grande, todos chiavam.
No caminho para casa veio cheia de si, estava orgulhosa de ser como é. A mulher ansiava pelo resultado, tinha quase certeza que seu 12° homem iria vencer. Ele sim, pensava ela, não tentou me comprar com presentes fugazes, esse é honesto. E dona Maria viveu feliz. Naquelas eleições acertou, o 12°, o que não a subornou, venceu. Uma pena que isso não tenha sido um sinal de moralidade, o fato foi que durante 4 anos o homem nada fez, apenas uns desviozinhos aqui, um suborninho ali. Mas dona Maria nem viu.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Há cem anos de uma nova cultura – A história da Imigração Japonesa no Brasil

Na história do homem e do mundo a transmissão de conhecimentos de pai para filho e de povo para povo foi a grande responsável pela evolução da própria humanidade. Há 500 anos, essa troca de conhecimentos teve início no Brasil. A descoberta do país pelos portugueses, a convivência destes com os índios e a chegada de escravos vindos da África caracterizam essa fusão de valores e costumes. Hoje, devido à facilidade de transporte e à comunicação, tornou-se impossível a não existência dessa miscigenação de povos, o que proporciona a multipluralidade cultural em cidades interioranas como Sorocaba, Itu, Salto e Indaiatuba. Este ano, podemos voltar no tempo para falar dessas diferenças de costumes, de religião, tudo que caracteriza um povo.

Um século após a grande onda imigratória no Brasil, discutir o que culminou essa miscigenação de culturas tão distintas se torna imprescindível. Hoje, italianos, alemães, portugueses, espanhóis, imigrantes de muitos países fazem a cultura brasileira. Porém nenhum desses povos se apresenta tão diferente em seus costumes e valores quanto os imigrantes japoneses. Vindos com o incentivo do Império nipônico da Era Meiji devido à miséria e o grande número de habitantes no Japão, os imigrantes sofreram para se adaptar ao Brasil. A comida, a religião, o clima tropical, o idioma, são apenas algumas das características que levou isseis (japoneses natos) ao sofrimento e até mesmo à morte. No navio Buenos Aires Maru, que atracou no Porto de Santos em 1934, Mitsuyo Mori viu seu irmão, ainda bebê, morrer. No novo país, após uma virose atingir toda sua família, a criança de 12 anos perdeu outro irmão, este com apenas dois anos de idade. “A viagem foi muito difícil, a adaptação também nos fez adoecer”, conta a senhora, hoje com 86 anos. Mitsuyo e sua família vieram no último navio antes da Segunda Guerra Mundial, na década de 30.

Anos antes, em 1908, chegava ao Porto de Santos o Kasato Maru e, na tripulação, quase 800 japoneses marcando o início da história da Imigração Japonesa no Brasil. A viagem de 52 dias teve fim em 18 de Junho. Após a chegada, os imigrantes firmaram contrato com seis fazendas do interior paulista distribuídas na região de Ribeirão Preto, em São Manuel e Itu. Foi nessas fazendas que os nipônicos descobriram a real situação brasileira. O Museu da Imigração Japonesa retrata a trajetória dos imigrantes no Brasil: “Os imigrantes da primeira fase (até 1941) chegaram ao Brasil dispostos a trabalhar de três a cinco anos, economizar para retornar ao Japão. Poucos deles conseguiram atingir esse objetivo”. Os baixos salários pagos pelos fazendeiros e as condições precárias de moradia influenciaram na fuga dos imigrantes das fazendas aonde foram morar e trabalhar. Nascido no Japão, Tomoo Handa descreve no livro O imigrante japonês outras dificuldades à vida dos japoneses nas fazendas “o jeitão de superioridade do administrador, a arrogância do fiscal e o mau atendimento do intérprete”. Para ele, tudo contrariava os imigrantes. A partir de então restava a eles a busca pela liberdade e, um ano depois, apenas 191 ainda trabalhavam nas fazendas.

Hoje, livres, as tradições, os traços, modos de viver tão peculiares, ainda são mantidas. Shogo Handa, 79 anos, buscou transmitir isso a seu filho. O homem fala com orgulho de Francisco Handa, monge e historiador. “Ele nasceu aqui no Brasil, mas é um japonês”, diz o senhor Handa. O filho vai escrever, ainda esse ano, um livro sobre a imigração japonesa no país. Certamente, escreverá que aqui, cem anos após a chegada dos primeiros japoneses, vivem cerca de 3,5 milhões de descendentes e, seus ritos, seus traços e suas histórias permanecem intocáveis.

Para homenagear os imigrantes, várias cidades do Estado de São Paulo, como Sorocaba, Indaiatuba e Salto estão promovendo festas, construindo praças, parques e, até mesmo, decretando 18 de junho como o dia da imigração japonesa no Brasil. Homenagens como estas possibilitam que todos conheçam um pouco da cultura e da história do povo nipônico.

Traços Marcantes

Sentado a seu lado pouco pude arrancar de sua história marcada por acontecimentos infelizes, acarretados pelos duros anos de adaptação ao Brasil. Mitsuyo Mori, ou dona Maria - como é chamada pela população de Salto, cidade adotada por Mori, seu marido e seus cinco filhos em 1962 – relembra toda sua trajetória nessa terra quente e “calma”, como ela diz. Dos longos dias de viajem ela guarda más recordações, a doença que assolou toda sua família, a morte de dois irmãos, a vida dura na fazenda de café. Porém não lamenta, cita as conquistas. “Aqui trabalhei e consegui que meus filhos vencessem na vida”, diz a senhora que, apesar dos 86 anos, mantém seus cabelos negros, traços típicos de seu povo.

As tristezas dos tempos da imigração não foram únicas, após dois anos na nova cidade, dona Maria, perdeu seu marido. Sozinha criou seus filhos, montou uma pensão, depois uma padaria. Nelson, seu filho mais velho, então com 17 anos, teve que trabalhar. “Ele entrou e se aposentou na mesma empresa, saiu de lá chefe”, fala com o mesmo tom de orgulho de todos seus filhos e netos.

Ansioso, perguntei o que todos perguntariam, voltaria para o Japão? Sem pensar muito ela diz que não. “Fui lá há alguns anos, não gostei”, afirma. Para ela, a correria, os avanços no país apagaram as imagens que ainda guardava de sua terra natal.


domingo, 22 de junho de 2008

O fim do “Deus Pai” para um adolescente


Aos 16 anos deixei de acreditar em Deus. Passava dias, noites imaginando, sonhando com a existência ou não de um ser superior a mim. Lembro que na escola, segundo ano do ensino médio, era essa a minha vida, minha razão de existência: acreditar ou não. Passava horas discutindo com um amigo, outro na mesma duvida. Dizíamos heresias, blasfêmias, depois riamos de nossa desgraça: “E se ele existir?” perguntava um. “Aí estamos perdidos” respondia outro. Nosso diálogo era como facada no coração de outros colegas católicos e evangélicos, sorte a nossa não haver nenhum fanático entre eles.

O tempo passou, estávamos no último ano, as coisas pioraram. A literatura agora me enchia de argumentos, a própria bíblia era minha aliada. Eu bradava a cada descoberta: “Agora é fato, Deus não existe!”. Tudo para infelicidade de minha mãe, minha avó e minha tia, todas católicas. Era um tempo de alegria para um jovem adolescente.

Hoje, cinco anos após toda essa baboseira, posso dizer que o ateísmo presente em mim nada mudou em minha forma de ver o mundo. Discutir com um católico ou evangélico já não tem a mesma graça, nem lembro mais do universo de “provas” que consegui sobre a não existência do “Todo Poderoso”. Posso dizer que deuses existem e são aqueles que nos fazem mover o mundo em busca de coisas passageiras, boas ou más. O dinheiro, o amor, o poder, são três elementos capazes de enlouquecer qualquer homem, de destruir ou construir um mundo.

Sei que essa idéia-fixa não está totalmente inerte no universo louco dos meus pensamentos. Ela voltará no momento em que entrar na igreja e esperar minha noiva, linda, vestida de branco, com seu véu, sua grinalda, como sempre católica. Voltará no momento de educar meus filhos quanto aos valores desse mundo ingrato que lhes deixarei de herança. E voltará, principalmente, quando estiver nos últimos momentos dessa existência que me encheu de prazeres.

Posso dizer que, ainda agora, vivi muitas coisas que preencheram meu ser de aventuras, amores, devaneios e outros elementos mundanos. As drogas foram meu vício, as letras meu entretenimento, as músicas meus delírios mais humanos. Lembro da poesia das imagens, das palavras e das idéias de certo filme. É essa obra que se ensaia em minha mente quando redescubro a realidade mortal da vida dos homens. “As invasões bárbaras”, era este. Os prazeres do mundo, as recordações, e a melhor morte já encenada: o fim de um velho ateu.

As hipocrisias humanas sempre hão de acalentar as velhas formas entender o mundo: ser ateu é ser vazio de espírito, é não ter amor a si e ao mundo, é ser ingrato com um ser que jamais viram nem entenderam. A meus filhos direi apenas que nasci assim, vivi muito bem e feliz com essa idéia. Que a morte é fato certo para qualquer um, ateu ou não. E que o fim de Deus para um adolescente é o início da vida, com seus maiores desejos.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Manifesto do repúdio

Há algum tempo certo trabalho acadêmico me encheu de angústias, de enfados, e outros sentimentos pesarosos. Era preciso resumir, encontrar frases relevantes e criticar. Confesso que, quanto à criticar, não havia problema, o grande sofrimento era resumir, pois era preciso ler e reler o escrito. Tal trabalho me rendeu boa nota e um pesar de lamento por parte de meu professor, simpático aos pensamentos do "escritor" resumido e criticado. O resumo não está aqui, seria enfadonho para qualquer leitor, poupo-os deste intento. Porém aí está a crítica a esse espectro, ao espectro do comunismo.

Hoje, mais de 90 anos após a Revolução Russa e mais de 40 após Revolução Cultural Chinesa, graças a História, posso imaginar o vermelho do comunismo manchando esses dois países. A cor vermelho sangue do partido é real, reflete a morte de dezenas de milhões de pessoas que se opunham ao Regime de Stálin e Mao Tse. Porém a mancha assombrosa do Comunismo não parou por aí, persiste até hoje em jovens ingênuos fiéis a utopia de Karl Marx. Em Cuba, o Regime ainda traz um atraso que mutila a cultura e a liberdade das pessoas e, a nossa volta, na Venezuela, na Bolívia e no Equador ensaia a sua volta.

Ainda hoje Marx é tido como um dos maiores pensadores das ciências sociais, fato que reflete o sonho de igualdade e a ingenuidade de jornalistas, escritores, políticos e jovens alienados no mundo inteiro. Por diversas vezes este teórico acerta a realidade vigente na sociedade, como no antagonismo de classes, na exploração da classe trabalhadora, e de mulheres e crianças. Os problemas sociais apontados por Marx ainda são marcantes, apesar de tentativas frustradas de alguns setores da política e da sociedade de diminuir esses impactos. Porém o aflitante nele é sua utopia que não perde a validade, não é esquecida quando deveria ser execrada pela história.

Poderão alguns ingênuos ainda acreditar que Marx iria se opor ao regime de Stalin e de Mao Tse-Tung, mas em várias de suas obras fica claro seus intentos de uma derrubada violenta das coisas existentes na sociedade. O Comunismo, para ele, deveria surgir e derrubar instituições, destruir tudo o que fora conseguido com trabalho e inteligência através dos anos.

O que vejo em Karl Marx é o sonho mais ingênuo já existente, perdendo apenas para o Anarquismo. Marx acredita na união de homens igualmente oprimidos e escravizados. A História pode nos mostrar tudo de monstruoso que tais pensamentos acarretaram. Só nos resta, agora, lutar contra os resquícios da alienação comunista que ainda sonham com os “ideais” de Marx. Na história contemporânea exemplos de ex-esquerdistas podem ser seguidos, como Mário Vargas Llosa e Paulo Francis. Ambos antes marxistas se viraram contra o Partido do Sangue. Filho do primeiro, Álvaro Vargas Llosa, em artigo publicado em Veja descreve saudosistas do comunismo como “Perfeito Idiota Latino-Americano”. Ele cita os Chefes de Estado da América Latina como os populistas Hugo Chavez e Evo Moralez como sendo os principais exemplos dessa espécie horrorosa. No Brasil, apesar do Presidente Luís Inácio da Silva ser, como eles, um populista, sua forma de governo está longe do comunismo. Ainda bem.

Esse espectro, o espectro do comunismo poderá viver para sempre na literatura, como um sonho ingênuo que não leva em conta as aspirações ambiciosas dos homens. “O poder corrompe”, esse jargão está longe de ser realmente entendido pelo povo. O poder e o pensamento comunista já levaram milhões à morte. Que fique agora o bom-senso, a liberdade, a qual Marx condena como sendo burguesa, mas ainda sim liberdade. Que entre para sempre para as prateleiras de Ficção esse escrito tão assombroso que é O Manifesto Comunista.

domingo, 13 de abril de 2008

Não se suje, ou suje-se, mas não julgue

O título desse texto pode lhe trazer a lembrança de algo já escrito: Suje-se Gordo, conto de Machado de Assis. Só li essa história uma vez, em outra ouvi e vi, numa bela narração e interpretação de Mateus Nachtergaele em “Contos da Meia-Noite” da TV Cultura. O fato é simples, um rapaz que se martiriza por ter que julgar alguém, afinal, “não julgueis, para que não sejais julgado” como diz Mateus, não o ator, o da Bíblia. Oras, isso se torna curioso uma vez que o homem ama julgar e condenar, mesmo ignorando os aspectos que compõem a ação julgatória. Coisas assim li, vi e ouvi em jornais, na rua, no trabalho e na faculdade essa semana.

A pequena Isabella, de cinco anos, foi cruelmente assassinada e o esclarecimento desse caso pode ser fantástico: um assassino infiltrado em um edifício, ou um pai e madrasta homicidas. A solução do crime se torna difícil, afinal, para se condenar é preciso provas precisas que dêem a certeza de quem matou a menina. Para se chegar ao final das investigações dez peritos estão trabalhando. Não há quase nada que condene o pai, a madrasta ou a própria mãe de Isabella. Mas o mais impressionante, o que me moveu a escrever esse artigo: o pai e a madrasta já foram julgados.

Em “Suje-se gordo” o rapaz narrador do conto, por ter que julgar alguém, afirma que o réu é inocente, se é para julgar, que não se condene pois isso sim é julgar: condenar. Se é que fui claro. Ele não tem provas de que o rapaz roubou, não estava lá, não havia provas cabais de que ele cometeu o crime. O curioso do conto, que faz ter vontade de que aconteça o mesmo aos que julgam antes da hora, é que outro rapaz que compunha o júri e, que condenava o réu, tempos depois se sentou ao banco dos réus.

Tudo no caso da menina Isabella pode levar a crer que o pai e a madrasta foram os reais assassinos, mas nada está confirmado. O que seria bom, em um acontecimento tão doloroso para a família e assustador para o país, é manter o bom-senso e esperar que os investigadores solucionem o caso, porém isso não está acontecendo. Na libertação do casal o que se viu foi o ataque físico e moral ao pai e a madrasta da menina. E o que marca é o julgamento e a condenação do casal, pelos jornais e pela população. Eu não julgo, não faço isso por religiosidade, isso não é um valor religioso, é apenas um pouco de bom-senso e cautela: e se o casal for inocente? Como ficarão vocês que o condenaram? Como diz novamente Mateus, “não julgueis, para que não sejais julgado”.

sábado, 29 de março de 2008

Uma idéia-fixa solta


A percepção me fazia insone, eu fazia traços, que me traziam riscos, dei por me esquecer. Tudo se tornara escuro, tal a noite. Lembrei certo momento, mas foi rápido, nem deu pra perceber. Observei alguns cantos do quarto, da memória; papéis riscados, tantos em minha mesa. Havia uma mosca, me desviou a atenção, quase esqueci que havia esquecido. Era um assombro, antes pouco notava. Mas aquilo ainda estava ali, em algum canto, não do quarto, da memória.

Ouvi certa vez algo parecido, um garoto, desses que se vê aos montes em qualquer canto, havia esquecido onde estava. Certo momento lembrou o que era, tentou concertar, mas esqueceu novamente e voltou refletir. Era tal qual minha dúvida, só que muito mais trágico, porém menos enlouquecedor: eu sei do que esqueci. Nesse momento, com o bico de uma caneta que havia na mesa eu risquei, fiz uma linha, mas logo me recompus: amassei, joguei fora. Não podia ser assim, primeiro era idéia, depois era a frase, depois eram os riscos; só pode ser assim. Mas foi uma tentativa.

Esperei horas, não desistiria, a idéia tinha sido boa. Disso me lembrava. Lembrava também que era sobre alguma coisa concreta, algo político, talvez artístico. Vi em pensamento também que no exato instante que fui fazer os riscos, me esqueci. Maldita idéia. Boa idéia seria se todos os bons pensamentos não precisassem ser escritos, já se concretizassem ali, dentro de um papel, no instante em que a lâmpada da idéia se acendesse em nosso espírito. Se ao menos tivesse ido dormir. Cedo. Como era de se esperar.

Continuava ali, à cata da idéia que havia fugido, pô-la-ia no papel rapidamente, em riscos rápidos, um rascunho. Depois arrumaria, ajuntaria palavras secas, para dar uma narrativa mais eficaz e prazerosa. Se algum prazer pode dar palavras secas. Refleti sobre isso, já era custoso refletir. Quase amanhecia. Indignei-me, era a ultima chance, os últimos instantes. Dei a mim mais dez minutos, se nada resolvesse parte de mim iria dormir, outra parte sonharia com a idéia perdida. Se viesse em tal sonho, acordaria, e, enfim, pô-la-ia novamente: no papel. O papel, notei estava cheio de riscos, mas nada concreto. Peguei outro, faltavam dois minutos. Já colocava na caneta sua tampa. Faltando segundos dei em guardar o papel sem rabiscos. Levantei, fui pra cama.

Deitado aquilo ainda fulminava meus pensamentos, aonde diabos havia ido parar tal idéia? Não ia dormir, talvez nunca mais, a idéia havia sido boa. Tormento, angústia. Maldição! Exclamei certo momento. Mas já ia me acalmando, os olhos fechando, não pensava mais em idéia. Talvez amanhã, outro dia. Foi de novo a maldição, dessa vez não exclamei. Abri os olhos, como quem ouve grande estouro. Levantei, corri ao papel. A caneta, onde estava a caneta? Me perguntei. Estava ali, na mesa, mas fechada. Irritei-me por tê-la fechado. Havia lembrado, não podia esquecer. Abri a caneta, tremendo. Me pus a escrever. Parei. Qual era a idéia?

quinta-feira, 27 de março de 2008

Um passeio pela biblioteca


Era um dia nublado, saí de casa com a certeza de que não choveria, porém se chovesse eu estaria abrigado, num lugar deserto, de calma e silêncio. Já havia perdido a soma dos dias em que habitava sozinho a paz daquela biblioteca, ouvindo as vozes vindas da rua, o motor dos carros, toda a vida lá fora. As prateleiras com sua infinidade de volumes me traziam uma existência eterna, havia um mundo de relatos de amor, ódio, loucura, dramas, romances bobos, histórias infantis. Eu sentia, aquele era meu mundo.
Da fachada daquela casa antiga, tão histórica quanto seus livros eu me vi em seus cantos; por quantas vezes havia preenchido a solidão de minha adolescência com páginas repletas de vidas passadas? Perguntei a mim mesmo, como era de costume. Ali dentro olhava cada volume, sabia de cor o que havia em muitos deles, alguns já fugiam de minha fraca memória, alguns se encenavam na minha frente como a morte de Werther em seu amor infinito por Carlota, a espera interminável de Florentino Ariza por sua amada Firmina, ou o desespero de Raskolnikov por seu Crime e seu Castigo, eram muitas as cenas, de histórias fantásticas, de pensamentos sufocantes. O sol já se punha lá fora, não pude ver, porém o fechar das janelas era o sinal de que a biblioteca seria fechada; eu deveria ser rápido, escolher algum volume que saciasse minha insônia.
Eu revistava cada prateleira, todas elas me ofertavam suas dezenas de histórias, novelas, contos. Cada prateleira trazia dezenas de países, de tradições, de costumes, de acontecimentos tão distintos. Ali era possível visitar a Colômbia de García Márquez, a Rússia de Dostoievski e Tolstói, a Portugal de José Saramago ou se ater ao nosso país, em nosso maior escritor, Machado de Assis. Lembro ter devotado grande parte de minha adolescência a esse último. Machado de Assis era a complexidade do pensamento, a construção genial de uma narrativa, a fantasia, a realidade, o que temos de melhor. Decidi, era ele o escolhido, mas não sabia qual deles, já havia lido quase todos. Faltava Iá Iá Garcia, peguei esse.
Na recepção, junto à bibliotecária, relembrei da solidão daquela casa antiga. Havia público ali sim, a maioria para consultar algum autor, jovens fazendo trabalho escolar. A cidade era grande, no entanto quantos já foram ali emprestar pelo menos um livro? Refleti sobre o caráter deserto de uma biblioteca, eram poucos que sentiam o mesmo, que freqüentavam aquela casa e viam as histórias se exibirem diante de seus olhos. Olhei para o livro de Machado de Assis, cem anos sem suas palavras. Olhei para aquela biblioteca, quantos anos eu queria viver para ler todas essas histórias.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Alberto Dines - Manual Lula de Jornalismo

Como esconder notícias ruins ou transformá-las em boas

"A imprensa só publica notícia ruim", declarou em improviso o presidente Lula na terça-feira (5/12), em cerimônia oficial no Palácio do Planalto. E acrescentou maliciosamente que notícia ruim deve ser um bom negócio, já que é veiculada com tanta freqüência (título principal da pág. A-10 da Folha de S.Paulo de quarta, 6/12). Naquele mesmo dia o "apagão aéreo" viveu o seu momento culminante.
Como já foi dito neste Observatório, devemos louvar a Divina Providência por não ter permitido que Lula da Silva estivesse incumbido naquele dia de algum trabalho jornalístico. Caso contrário, no seu jornal/rádio/TV a notícia do caos nos aeroportos jamais teria sido publicada. Mesmo que testemunhada e vivenciada por milhares de brasileiros nos principais aeroportos do país.
Lula não precisa ser jornalista, há jornalistas dispostos a eliminar as notícias ruins dos respectivos veículos sem qualquer cerimônia. Ou simplesmente transformá-las em notícias favoráveis.
Exatamente isso aconteceu com a matéria de capa da última CartaCapital (13/12, págs. 26-31): o bravo semanário seguiu o "Manual Lula de Jornalismo" e conseguiu o milagre de converter a débâcle no tráfego aéreo brasileiro motivada pela tragédia do Boeing da Gol em mera "turbulência política" atiçada pela "nostalgia golpista" de setores civis e militares.
Segundo a revista, o apagão aéreo não existe (foi invenção da oposição logo encampada pela mídia), assim também a operação-padrão iniciada pela minoria de civis que trabalha como controladores de vôo.
A idéia central da reportagem é comprovar que a "proposta de desmilitarização da aviação civil acirra os conflitos entre o Ministério da Defesa e a Aeronáutica". Mas o que tem sido divulgado pelo próprio governo é justamente o contrário: o comando da Aeronáutica aceita o controle civil do trafego aéreo ficando com os militares a defesa do espaço aéreo.
Gabinete de crise
De acordo a mesma matéria, o desempenho do ministro Waldir Pires à frente do Ministério da Defesa, tem sido impecável. Inclusive na condução da crise da Varig e a sua solução através das forças do mercado, apesar dos "traumas para milhares de trabalhadores".
Nenhuma palavra sobre o trauma sofrido pelos trabalhadores que operavam a torre de Brasília na hora da colisão entre o Boeing e o Legacy. Nem sobre a sua responsabilidade no acidente devido às precárias condições de trabalho.
Antes mesmo da decisão judicial que permitiu a devolução dos passaportes dos pilotos do Legacy, a revista é taxativa ao constar que o desastre resultou da "convergência da má sorte com a irresponsabilidade dos dois pilotos americanos".
A decisão de entregar à ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, a organização de um "gabinete de crise" para monitorar a situação no setor aéreo foi transformada numa boa notícia para o ministro da Defesa: segundo a revista, ele deverá coordenar os trabalhos. O noticiário emanado do governo afirma o contrário: a ministra Dilma Rousseff será a gerenciadora do grupo.
Não aprovaria
Waldir Pires merece o respeito dos brasileiros pela sua biografia política (que ocupa grande parte da reportagem), mas esta dívida não pode ser paga através da manipulação de informações em assunto de tamanha gravidade.
Em matéria de pagamento, aliás, a CartaCapital não pode se queixar: nesta edição, do total de 33 páginas pagas ou permutadas (24 de anúncios e nove de um caderno especial), 19 (cerca de 57%) saíram do bolso do contribuinte (as nove do caderno especial pago pelo BNDES e dez por outras empresas públicas, entre elas o Banco do Brasil, Petrobras e Correios).
Esse é um tipo de jornalismo que Lula, o crítico de mídia, certamente não aprovaria. Mesmo sendo o seu beneficiário.

Por Alberto Dines em 12/12/2006

Fonte: Observatório da Imprensa

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Morte do Caixeiro Viajante, uma morte comum


O título do filme, adaptado da peça de Arthur Miller, de mesmo nome, já nos conta o seu fim. Willy Loman é o idoso caixeiro viajante, que nutre o sonho do sucesso de seu filho Biff (John Malkovich) e o seu. Arrasado pelo realismo que cerca não apenas a ele, mas a todos nós - Biff não tem sucesso, pelo contrário, é um fracassado; e no trabalho, Willy não consegue a promoção que sonhara durante toda sua vida - nasce aí “A morte do caixeiro viajante”.

Dustin Hoffman nos mostra a dor, uma dor escondida por uma máscara sempre forte de esperança e hipocrisia. Durante o filme, a dor chega a transpassar a tela da TV e vem até nós, a angústia do homem comum, com um sonho comum se torna nossa. Fica difícil assistir Willy em seu mundo utópico e vê-lo na miséria, mas muito mais difícil ainda é largá-lo lá, sozinho. Sozinho em seu enterro, apenas com o amor de sua esposa e a ignorância de seu outro filho, que não se sabe o nome.

Willy não está sozinho em seus sonhos. Ele reflete um mundo de pessoas, cujo único objetivo é vencer, ou ser como ele, um fracasso. Está aí a simplicidade da obra: Willy não quer nada que qualquer um de nós não queira. Seu sonho é ter um emprego digno e que seu filho também não seja um renegado.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Entre vontades e preconceitos


Todos têm o direito de serem livres, de buscarem sua felicidade, tudo que os faça bem e faça sua própria identidade. Um homem não seria um homem sem suas próprias vontades, sem as aspirações que o faz agir no impulso, que o faz construir o mundo através da arte, do trabalho e do convívio em sociedade. “... as músicas, as danças, os discos...” como diz a música é o que cria a identidade, a cultura de cada homem. A cultura é o que nos diferencia, nos faz ser o que somos e, também, o que leva alguns a rejeitarem os outros, a guerrear e, a matar.

Ao longo da história humana as diferenças, sejam religiosas, políticas, artísticas e até mesmo de sexo foram os verdadeiros motivos por toda a luta, todo o sangue derramado. Pais e filhos, amigos, vizinhos lutando pela intolerância, pela não aceitação no outro do que não há em si. Na Alemanha de Hitler, vizinhos denunciavam vizinhos e até familiares eram entregues para um regime racista e intolerante.

O fim do Nazismo deu-se, enfim, mas não levou consigo o preconceito, o olhar de desprezo pelo que é diferente, não levou nem ao menos a guerra. O dia-a-dia de discussões religiosas, de guerras entre punks e pagodeiros, brancos e negros parece não chegar ao fim.

“Ninguém é igual a ninguém...” continua Humberto Gessinger. E continuamos também lutando e esperando o dia em que cada um enxergar o quão humano é ser negro ou branco, é ser católico ou muçulmano, é querermos para nós o que achamos ser o melhor.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ensaio da música através dos tempos







“Não existiria o som se não houvesse o silêncio...” ouvi ao despertar Lulu Santos. Amanheci tranqüilo, satisfeito por poder respirar, por mais um dia. Uma manhã tranqüila, lá fora os pássaros sem compraziam com seus cantos. Lembrei de algumas músicas, haviam muitas, 20 anos ouvindo. Rádios, cd’s, dvd’s, minhas músicas no computador. Recordei velhos tempos, tal qual saudosistas, apesar da pouca idade sempre fui um velho. Já havia chorado ouvindo o “Lembra de mim” de Ivan Lins; tentava lembrar de amores que não tive, como é humano ser um bobo. Foram tantas as emoções como diria o chato do Roberto Carlos.

Certo momento me vi em um triangulo, lutava por um amor, não sabia quem era. Lembro da canção, ela dizia “esqueça se ele não te ama”, ou algo parecido. A doce voz da Marisa Monte me fazia acreditar, eu estava apaixonado, não duvidaria disso, estragaria o encanto. Sonhei com esse amor, mas era manhã, sonhei acordado. Nem bem anoitecia dei por perdida a batalha, perdi o meu amor. Chorei ao som de algum sertanejo qualquer, não havia apenas músicas boas. Mas as boas que sabia me traziam as mais diferentes sensações.

Ouvi certa vez “Construção” de Chico Buarque, não havia nada de extraordinário, apenas um pedreiro ou servente que havia caído do alto do edifício em construção. Apenas isso, torço para que vocês acreditem que esse “apenas” foi uma ironia. Mas o fato existente, a sensação, foi um arrepio. Senti minha pele retrair e um calafrio que me percorria a espinha. A música trouxera um sentimento de tristeza, o fato era simples, porém cruel e real. Contudo eu me lembrava, não era a primeira vez. Como nossos pais, cantada na voz de Elis, mostrava o intelecto de Belchior, o compositor. Belchior, como Chico, também sabe o ponto exato que suas canções podem atingir. Mas não só eles, adicionemos à lista um Tom, o Jobim. Contamos também Toquinho, as vozes de Bethânia, de Gal, as composições e a voz tão inebriantes de Adriana Calcanhoto. É, a música já havia me dado muitas coisas. Senti muita raiva também, isso é certo.

Creio que uma das piores coisas de não se morar em um lugar isolado, distante de todo o mundo, é o fato de termos que ouvir o que nossos vizinhos ouvem. Já fui atordoado com tantos funks, raps, pagodes, alguns de grande sucesso - não cito nomes para não manchar o papel – pensei certa vez que iria enlouquecer, entretanto estou vivo. Porém é comum nesse mundo existirem coisas boas e ruins, algumas bem ruins, devo dizer.

Para finalizar, uma boa música, mas não sei. Sim, é algo que me atordoa agora, não sei mais o que ouvir. Certo seria ouvir coisas novas, mas não confio nesses produtos que estão à venda hoje em dia. Talvez coisas velhas que ainda não conheci, devem existir. Melhor fazer como um sonhador, ir rompendo fronteiras, chegando aos mais distantes horizontes. Mas claro, sempre fugindo da vizinhança.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Mais que um simples clipe...

Um angustiante vídeo do Pink Floyd, uma das maiores bandas de todos os tempos. A mensagem: o fim desse mundo de pessoas que se matam. A guerra atômica, o sangue escorrendo na sargeta, o velho monstro humano, sonhado e inventado pelo próprio homem.

Goodbye BlueSky é muito mais que uma simples canção, é o pensamento do real e constrangedor, da auto-destruição humana. Impossível assistir a esse clipe com indiferença: veja e sinta, mas não chore; a degradação chega a ser prazerosa, o fim é para todos nós, os culpados.

O despertar da humanidade...

A cidade estava ensandecida, não havia ordem, muito menos progresso. Políticos loucos roubavam até o dinheiro de seu próprio salário, e assim diziam que trabalhavam sem receber nada, apenas para o bem da população.

Atento a tudo isso chegou à cidade Simão Bacamarte, médico, notável estudioso da loucura, dos desvios humanos de conduta. Logo ao pisar na cidade, Simão vê que ali será o centro de todas suas pesquisas que se estenderão pelo mundo. E com a ajuda de amigos, homens poderosos da cidade e alguns políticos que pôde comprar com o dinheiro que havia ganhado durante muito tempo de trabalho, ele constrói a Casa dos Espelhos. Uma espécie de hospício destinado ao estudo de políticos corruptos e desonestos.

(Entra Simão e seu amigo Teodoro, um vendedor de ervas, conhecido em toda a cidade).

-Sabe Teodoro. Criei essa casa com o desejo de recolher todos os senadores, deputados, ministros, enfim, todos os políticos que só pensam em si mesmo, corruptos. Coloquei espelhos por toda a casa para que talvez assim eles se olhem e veja o quanto são nojentos os seus atos. Eles assim vão sentir que tudo o que fazem é nefasto, e mudem com isso.
-Mas não será nada fácil fazer com que eles queiram ir para a casa buscar tratamento. Você sabe como todo louco desconhece sua loucura, não a aceita. E ainda me parece que eles são muito unidos, não deixariam que você pegasse ninguém.
-Oh! Como não! Ontem mesmo trouxe três. Eles foram responsáveis pelo desvio do dinheiro da merenda escolar. Seus colegas realmente não queriam entregá-los. Mas dei apenas algumas notas de cem e pude trazê-los.
-Com apenas algumas notas de cem? É incrível como eles se vendem fácil.
-Sim. O dinheiro é única coisa que importa a cada um deles. E vou agora mesmo buscar mais quatro. Assim que peguei os três larápios eles vieram me dizer que os entregaria a um preço muito mais acessível que o pago aos outros colegas.
-Oh! Que mundo, que pessoas.

(e saem os dois)

(Simão passeia sozinho, e depara com um político em campanha)

-Eu prometo que até mesmo a água que vocês consomem será gratuita. Darei emprego a todo pai de família assim como casa, e assim todos você terão uma vida confortável. Eu garanto, e podem anotar: se nada disso que lhes falei for feito, nunca mais votem em mim. (dizia todo empolgado)

(Simão, consigo mesmo)

-Levarei esse papudo para a casa. Esse tipo é um dos mais incríveis que já vi. Promete o mundo apenas para ser eleito. Mas vejam como todos eles olham fascinados para esse charlatão.
Após levar o homem para a casa, Simão é parado na rua por uma mulher.

-Por que o senhor levou o Dr. Pintado para a casa? Saiba o senhor que ele é um político que faz. Um homem honesto como dificilmente se vê por aí.
-Claro minha senhora. Venha, me acompanhe. Levarei a senhora a ter com ele.
-O senhor vai tirá-lo não vai? Senão vou ter que escolher outro para dar meu voto. E outro homem honesto como ele é difícil de encontrar na política.
-Sim, sim eu o tirarei da casa o mais rápido possível. – diz o homem puxando a mulher pelo braço.

(Simão, atravessa o palco ao lado de Teodoro)

-É interessante que existam tantas pessoas que realmente acreditam nesses loucos. Anotarei e estudarei também essa patologia. É algo também muito útil para todos nós. - diz Simão.

(As experiências de Simão acabam levando muitos políticos para a casa verde)

-Simão, Simão! A Câmara municipal está parada. Nenhum projeto pode ser mais votado. – diz ofegante Teodoro.
-E o que tem de anormal isso? Veja, por isso que trabalho dia e noite atrás de uma solução, algo que acabe com toda essa vagabundagem.
-Não é isso Simão. É que três quartos dos vereadores da cidade estão na Casa dos Espelhos. Sem os que estão em tratamento aqui, nada pode ser feito. Nenhum projeto é elaborado e aprovado.
-Mas isso sempre ocorre. Não vai fazer diferença se eu der alta a eles. Ora Teodoro você precisa entender que esse estudo é muito mais importante. Venha aqui vamos ver como andam esses políticos.

(Saem e entram os políticos internados) Espelhos nas paredes: eles se admiram o dia inteiro.

Entra Simão (com ar de angustiado, olha para todos eles e fala consigo mesmo)

-Estive errado todo esse tempo. Já tentei de todas as formas eliminar esse jeito político, essa falta de amor com seus companheiros de trabalho, com o povo. Mas não há jeito. A desonestidade é própria do ser humano, é imutável. Como pude estar cego a tudo isso? Não vi que eles são normais, não tem nenhuma patologia. Sendo assim – para um pouco para pensar – Sendo assim os loucos são os que não roubam, os que são honestos. Se a imensa maioria é corrupta, desonesta, os loucos são os que não tem nenhum desvio moral, os incorruptíveis. São deles que devo me ocupar. Estudarei todos os que não pude trazer aqui, pois não haviam apresentado desvios de conduta. Vou agora mesmo buscá-los, devem estar trabalhando a essa hora.

(Simão põe todos os políticos internados para fora, e vai atrás dos que com certeza estão trabalhando)

-Mas Simão, como você pôde prender os poucos políticos que ainda trabalhavam em nome do povo? Logo eles que ficavam por longas horas criando novos projetos em nome do bem-estar e da justiça? – pergunta Teodoro.
-Sim. Mas cheguei à conclusão de que são eles os loucos. Você disse bem, como podem ficar por longas horas apenas trabalhando para a população? Enquanto seus colegas roubam e não fazem nada?
-Oras, mas isso não significa que sejam loucos.
-Pode ser, mas de qualquer forma os estudarei. Verei se eles realmente são honestos. Se forem, talvez assim eu possa chegar a uma formula de fazer com que os outros sejam como eles. Assim teremos uma leva de políticos honestos do senado, na câmara dos deputados, nos ministérios, enfim, em todos os lugares.
-Sim! Brilhante. Se conseguirmos fazer com que todos eles sejam honestos e trabalhadores, tudo será perfeito.

(Passado algum tempo de muito estudo e observação)
Simão e Teodoro pelos corredores da Casa dos Espelhos

-Andei observando dia após dia cada um dos enfermos. Com muitos testes e muita paciência cheguei à conclusão de que todos eles também têm desvios morais. – vai dizendo Simão a passos lentos.
-Como assim? – pergunta Teodoro.
-Fui dando a cada um doses bem medidas de incitações ao crime para que aparecessem esses desvios. Deixei que minha carteira caísse na frente deles por varias vezes. Deixei dinheiro em alguns cantos da casa.
-E? O que aconteceu? – perguntou Teodoro com ansiedade.
-No começo eles me devolveram a carteira, sem tirar um trocado para si. Mas com o passar do tempo, notei que ao devolverem faltavam sempre duas ou três notas. E por fim, não sobrou nada, tiravam tudo.
-Nossa! É difícil de acreditar nisso. Eles pareciam ser tão honestos.
-Já as notas que deixava espalhado por alguns lugares na casa sumiram todas. Não devolveram nenhuma.
-São todos eles corruptos!
-Mas espere. Não lhe contei o que passei a observar a seguir.
-Pois conte. – pediu o vendedor de ervas.
-Nos jantares, almoços e cafés da manhã percebi que uns foram boicotando os outros. Sempre um queria ter o lugar do outro na mesa, pois dizia que aquele era o melhor lugar. Queriam o melhor bife, o maior pão. Alguns chegavam a oferecer o dinheiro que haviam conseguido com meu teste apenas para ter direito a comida do outro.
-A Casa dos Espelhos acabou fazendo o contrário. Transformou os honestos em desonestos.
-Não. Não foi o contrário. – começou Simão parando para pensar a seguir. – Acabei de elaborar uma nova teoria. Veja bem.
-Fale.
-Todo homem nasce igual. Somente o meio é que os fazem diferentes. Sendo assim, alguns tiveram mais oportunidades que os outros. Ou seja, os que vieram primeiro para a casa já haviam passado por varias oportunidades de roubar, desviar dinheiro, de corromper e ser corrompido. Já esses que aqui estão ainda não haviam passado por isso.
-Não entendi. Explique melhor.
-Todo homem é corrupto. Todos são desonestos. Mas somente o meio em que vivem pode revelar isso.
-Ah! Por isso que no Brasil existem tantos políticos desonestos?
-Exato! Veja, somente com algumas oportunidades que dei todos eles revelaram seus desvios.
-Oh! Estamos perdidos.

(E aparecem os “enfermos”, um roubando a carteira do outro).

-Agora soltarei todos eles. Fracassei! Somente a teoria ficará. A humanidade esta perdida para todo o sempre. – diz Simão.

(Nas ruas as pessoas comentam)

-Aquele médico lunático! Ele é o grande culpado por estarmos sozinhos agora.
-O que faremos agora? Uma revolução?!
-Vamos à Casa dos Espelhos e a poremos no chão! E acabaremos também com aquele louco. Ele destruiu o resto da esperança que tínhamos.
-É. Isso, vamos!

(Teodoro entra, sozinho, no palco e começa a ouvir gritos. É o povo que marcha rumo à casa de Simão, mas o encontram pelo caminho)

- Vejam! Ele é amigo daquele impostor, charlatão! – grita um homem no meio da marcha.
- Sim já o vi diversas vezes andando com ele! – grita outro.
- Vamos pega-lo, ele também deve ser condenado. – grita um mais exaltado.
- Sim! Prendam-no! – grita todos.

(Na casa Simão conversa com sua mulher, quando Teodoro entra assustado na casa)

-Foi um trabalho perdido. Tanto tempo. E meu sonho de ver esse mundo mais justo e igual. Tudo está perdido.
-Não fique assim. Não é culpa sua que esse mundo seja assim. Você foi, na verdade, um herói. Olhe, estava vendo. Como a população fez questão de ajudar pagando para que você tratasse os bandidos, acumulamos muito dinheiro, agora temos que devolver. – diz a mulher mostrando o grande baú cheio de dinheiro.
-Sim. Devolveremos tudo.

(Teodoro entra)

-Simão, Simão! O povo está revoltado.
-Como assim Teodoro? – pergunta o doutor.
-Eles vêm pela rua, armados, querendo nosso sangue!
-Calma Teodoro, você está assustado, até agora não ouvi nenhum grito.
-Eles vêm! Ouça! Corram, fujam! – grita o homem e sai correndo

(Aqui começam os gritos, os três se assustam)

-Destruam a casa e capturem aquele impostor. Ele acabou com nossa esperança. – gritavam as pessoas na rua.
-O que está acontecendo? O que eles querem? – pergunta aterrorizada a mulher do doutor.
-Querem se vingar. Dizem que matei suas esperanças de ter um mundo melhor. É verdade, acabei com os poucos homens que ainda lutavam por um mundo mais justo. Eles têm razão. Eu destruí a esperança que tinham de ver esse mundo mais justo, mais humano. Eu vou. Entregarei-me. Devo pagar pelo que fiz! – diz Simão.
-Não. Deve haver outra solução. – suplicava a mulher.
-Não há solução! Eu vou!
-Há sim. Pensaremos em algo.
-Em que? Tudo está destruído.
-O dinheiro. Vamos entregar o dinheiro, eles pararão na hora. E ainda ficarão a seu lado.
-Você quer que eu compre minha liberdade com o dinheiro do povo? Que eu dê a eles o que é deles? – perguntou Simão olhando assombrado para sua esposa.
-O que há de mal nisso? Vamos. Eu entregarei. – disse a mulher arrastando o baú.
-Céus! Até ela?! – disse o homem já ajudando a esposa a carregar o baú.

(Os dois chegam até o povo e jogam o baú a seus pés)

-Vamos fale algo que os traga para seu lado. – incita a mulher.

Simão olha para ela, ainda em choque, mas logo começa:

-Vejam o que conseguimos. Conseguimos arrancar o dinheiro daqueles ratos corruptos. Eis aqui. Ao povo o que é do povo! – diz empolgado Simão Bacamarte.
-Ao povo o que é do povo! – repetiram os ex-revoltados. –E viva o doutor Simão Bacamarte! Viva! – continuaram alguns exaltados.

Baseada em O Alienista, obra de Machado de Assis.
Essa é uma adaptação para o teatro da faculdade, infelizmente não teve proveito, porém aí está, escrito, e viverá mais que a mim e a vocês.

A tela dos desprazeres




Todas as coisas ficaram perdidas. O tempo ficou curto, as palavras pararam de ser ditas, deixando apenas o vazio, a falta de companheirismo, de uma voz amiga, de um conforto. A televisão deixou para trás o principio da evolução humana, a conversa, a transmissão de conhecimentos, de cultura de pai para filho, de amigo para amigo, que atravessaram séculos e parecia ser imortal.
Hoje na maioria dos lares a primeira coisa que uma criança faz depois de acordar e fazer seu ritual matinal é ir para frente da telinha, onde ficará por horas, sem dizer uma palavra, feito um zumbi, hipnotizado por algum desenho ou filme. A televisão desligou as pessoas de um mundo que está acontecendo a todo minuto. Enquanto um programa é apresentado, milhares de coisas acontecem para o bem ou para o mal de um mundo carente de liberdade, de paz e de união.
“A televisão me deixou burro, muito burro demais”, dizia a letra da musica composta por Arnaldo Antunes na década de 80. Mas a tela do atraso não deixou apenas uma juventude alienada, sem saber o que se passa a seu redor, imitando artistas que representavam uma rebeldia sem compromisso com os verdadeiros valores morais. Deixou de lado a relação entre marido e mulher, entre pais e filhos, amigos, vizinhos. A televisão, símbolo de um avanço tecnológico que nos permitiu infinitas descobertas se tornou um de nossos maiores atrasos.
A televisão é também um símbolo da falta de tempo de uma sociedade que trabalha por horas e não tem tempo nem mesmo para ler um jornal, ou um livro. E assim recorrem a um noticiário rápido que apenas joga um emaranhado de noticias na cabeça do já cansado telespectador. E também à novelas que se repetem todos os anos mudando apenas seus atores para demonstrar que aquilo é algo absolutamente novo, tentando impor emoções e fantasias em uma população cansada do estresse do dia-a-dia. A televisão se tornou uma fuga para todos os problemas, uma saída momentânea de um problema que não tem fim.
Mas as pessoas estão cansadas de tanta história repetida, tanta busca pelo que causa uma dor irreparável, não querem mais o sangue que é demonstrado todos os dias em nome de uma audiência que se baseia no sofrimento, na dor humana. Queremos algo que nos faça ver que nem tudo está perdido, ainda temos pelo que brigar, pois não miramos nossos atos pelo que se passa em um mundo fantasioso e apelativo. A televisão terá que mudar para manter sua audiência no mesmo nível, sua programação está esgotada, não trás mais nada de novo, só resta agora esperar seu fim, ou seu renascimento.

O pequeno grande...


Desde muito tentava descobrir o que nos diferenciava dos outros animais, o que nos fazia superiores, acima das demais espécies. No começo pensei que fosse devido o fato de termos um cérebro maior, pensávamos mais, raciocinávamos. Talvez por causa do nosso domínio sobre a natureza. Por conseguirmos viver em sociedade. Mas não, nenhuma afirmação era intocável, inabalável. Somente após certo tempo fui descobrir o elemento fundamental da nossa existência. O que nos faz superiores é algo tão simples e banal, tão pequeno e comum, que com certeza muitos talvez ainda não o tenham glorificado, aclamado, idolatrado. Nosso pequeno polegar. Um pequeno no tamanho, mas um gigante em sua importância.
Logo que o descobri, abandonei a idéia de que éramos superiores graças ao nosso grande poder de raciocínio, a nossa notória e inventiva mente, e ao nosso imenso poder sobre a natureza. Se raciocinássemos, não nos aniquilaríamos a todo instante com novas bombas de extermínio em massa, novas armas capazes de destruir toda a raça humana em segundos levando consigo todos os animais, todo o planeta. Não inventariamos novas guerras em nome de ideais que buscam a redenção, mas que nos levam à destruição, ao extermínio. Evoluiríamos a nossa mente. Seriamos deuses capazes de inventar o amor, não só como uma palavra, mas como um sentimento superior. Criaríamos a justiça, proclamaríamos o perdão e exterminaríamos a fome, toda a miséria humana, toda espécie de tormentos e angústias. Mas não, não somos deuses. Não pensamos, nos matamos. Não evoluímos, voltamos sempre à pré-história, e aí somos homens da caverna, destruímos tudo com o pensamento ingênuo de que tudo é eterno.
Nossa única evolução (que não é nossa) são esses dois polegares, que nos propiciaram construir o mundo com nossas próprias mãos. Deles vieram nossos arranha-céus, pudemos voar construindo máquinas que vencem a gravidade, nossas casas, nossas ruas com seus automóveis. Criamos uma máquina capaz até mesmo de nos substituir em trabalhos difíceis e repetitivos. O que dizer então das coisas simples que somos capazes de fazer. Qual outro animal consegue segurar um copo de água com tanta perfeição. Como utilizaríamos os talheres sem esses dois polegares que, inclusive, possibilitam-me escrever este artigo. Somente eles nos fazem diferentes. Somente eles nos fazem superiores.
Portanto, não nos vangloriemos por termos raciocínio, por pensarmos e assim dominarmos os outros animais. Não somos os donos do mundo, apenas o usufruímos. Não somos os mais inteligentes, apenas supomos isto. Apenas temos um polegar, a única coisa útil existente em cada um.