domingo, 13 de abril de 2008

Não se suje, ou suje-se, mas não julgue

O título desse texto pode lhe trazer a lembrança de algo já escrito: Suje-se Gordo, conto de Machado de Assis. Só li essa história uma vez, em outra ouvi e vi, numa bela narração e interpretação de Mateus Nachtergaele em “Contos da Meia-Noite” da TV Cultura. O fato é simples, um rapaz que se martiriza por ter que julgar alguém, afinal, “não julgueis, para que não sejais julgado” como diz Mateus, não o ator, o da Bíblia. Oras, isso se torna curioso uma vez que o homem ama julgar e condenar, mesmo ignorando os aspectos que compõem a ação julgatória. Coisas assim li, vi e ouvi em jornais, na rua, no trabalho e na faculdade essa semana.

A pequena Isabella, de cinco anos, foi cruelmente assassinada e o esclarecimento desse caso pode ser fantástico: um assassino infiltrado em um edifício, ou um pai e madrasta homicidas. A solução do crime se torna difícil, afinal, para se condenar é preciso provas precisas que dêem a certeza de quem matou a menina. Para se chegar ao final das investigações dez peritos estão trabalhando. Não há quase nada que condene o pai, a madrasta ou a própria mãe de Isabella. Mas o mais impressionante, o que me moveu a escrever esse artigo: o pai e a madrasta já foram julgados.

Em “Suje-se gordo” o rapaz narrador do conto, por ter que julgar alguém, afirma que o réu é inocente, se é para julgar, que não se condene pois isso sim é julgar: condenar. Se é que fui claro. Ele não tem provas de que o rapaz roubou, não estava lá, não havia provas cabais de que ele cometeu o crime. O curioso do conto, que faz ter vontade de que aconteça o mesmo aos que julgam antes da hora, é que outro rapaz que compunha o júri e, que condenava o réu, tempos depois se sentou ao banco dos réus.

Tudo no caso da menina Isabella pode levar a crer que o pai e a madrasta foram os reais assassinos, mas nada está confirmado. O que seria bom, em um acontecimento tão doloroso para a família e assustador para o país, é manter o bom-senso e esperar que os investigadores solucionem o caso, porém isso não está acontecendo. Na libertação do casal o que se viu foi o ataque físico e moral ao pai e a madrasta da menina. E o que marca é o julgamento e a condenação do casal, pelos jornais e pela população. Eu não julgo, não faço isso por religiosidade, isso não é um valor religioso, é apenas um pouco de bom-senso e cautela: e se o casal for inocente? Como ficarão vocês que o condenaram? Como diz novamente Mateus, “não julgueis, para que não sejais julgado”.