Não sei divisar o momento exato que passei a entender, ver ou sentir. A presença costumeira fazia parte da rotina, dos atos comuns do dia-a-dia às alegres festas aos finais de semana. Era uma sombra calma, porém por vezes tempestuosa. As discussões, os ataques momentâneos de raiva e de temor viviam lado a lado a um amor não dito, no entanto sentido. Éramos todos bons amigos. As horas vividas eram comuns: as velhas brigas, as mesmas discussões, as partidas alegres de futebol, as cervejas geladas após a escola. Não havia momento em que não tivéssemos um ombro amigo à nossa espera, uma voz calma, uma sabedoria inventada, criada para sanar a dor do amigo. Nossos passos até então seguiam juntos, unidos pela vontade comum. Logo chegariam ao fim as longas horas, os dias vazios ou cheios de desventuras, os meses eternos, os anos intermináveis de alegria e dor.
Um dezembro feliz, férias eternas de todo o infindável ensino básico. Despedíamo-nos das salas, do pátio, da cantina, dos funcionários, dos professores. Mas havia um laço difícil de ser quebrado: os amigos. Ninguém sabia ao certo o que iria ser. Quem sabe o tempo afugentasse eternamente as lembranças dos colegas, de todo mundo. Quem sabe viveríamos até o fim a roda com violão, cerveja e ideologias adolescentes. Foi um tempo incerto. A rotina de casa para escola se tornara a rotina do quarto para a sala. Os amigos eram agora virtuais. Chego a lembrar de Werther, em seus sofrimentos, mandando cartas a seu amigo Wilhelm, reunidas no fabuloso livro de Goethe. Nos escritos lhe contava de suas alegrias, seus amores, suas tristezas. Mas a nós, nem mesmo a beleza da escrita fora legada. Lembro de Novembro, Flaubert em seus devaneios de solidão e de amor por mulheres desconhecidas. Era um vazio.
Hoje, quase quatro anos após o fim daquelas aulas, não sei precisar o que se deu. Os amigos, guardo alguns, talvez estes com correntes eternas. Novos rostos aparecem, somem, outros parecem resistir ao tempo. Certo dia tentei ver qual a vida humana que não precisasse de tal coisa, simples até. Percorri os dias da semana, não havia um em que eles não estivessem. A morte de Rémy, em As Invasões Bárbaras, retrata o fim junto a eles. Cercado por amigos da faculdade, por sua esposa e seu filho, o homem vivia seus últimos momentos relembrando os vinhos que beberam, os lugares por que passaram, as idéias que tiveram. Os sabores, os aromas, as paisagens, pouca coisa teria importância se não fosse compartilhada. Os sentimentos devem ser ditos e compreendidos, disto vem o prazer da companhia.
Andar pelas ruas da cidade, tão vistas e sentidas pelo passar dos anos, nos remete a um tempo em que caminhar era a diversão, correr era a loucura. Cada rua em torno daquela escola nos traz imagens, sons, gestos, muitos destes ingênuos e vulgares até. Chego a reencontrar, em lugares comuns, amigos, inimigos, tantos que antes preenchiam minhas horas, reprimiam meu tédio de adolescente. Alguns me reconhecem, outros tantos vivem cegos. Partilho agora, com os bons amigos que restaram, o pouco que sobra para compartilharmos: um bom dia, um abraço, a boa sorte, muito obrigado!
