quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Uma grande frase



"Navegar é preciso. Viver não é preciso."

Foi no primeiro dia da aula de Sociologia, na faculdade, que ouvi alguém falar com entusiasmo sobre a frase de Fernando Pessoa. Com gestos eufóricos e um tanto engraçados, o mestre Carlão, tentava nos passar a grandiosidade do verso que dá título a este texto. Não sei, talvez devido ao tempo que passou, se refleti sobre o que ele dizia ou se me ative a sua interpretação, tão esfuziante que quase levou todos os alunos a fazerem mau juízo de sua sanidade. Os poucos que não viram loucura também deviam sofrer da mesma patologia, e eu me incluía nesse grupo. Dada a aula, demorei muito tempo para voltar àquela noite. A aula, junto à frase dormiam em meio a tantas outras lembranças peculiares e fundamentais à minha formação intelectual repleta de insanidades.

Mas vamos ao verdadeiro motivo da lembrança, a qual deve ter me acossado numa noite de insônia. Somente quando me demoro a dormir tenho lampejos de reflexão e inteligência. A frase era a mesma do subtítulo: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.Há muito, antes da aula decerto, tentava descobrir qual era a “precisão” a que se referia Fernando Pessoa. Cheguei ao absurdo de crer que o poeta preferia navegar a viver. Entendi-o como um tolo: uma heresia. Fernando não era tolo, muito menos meu professor, eu o era.

Uma luz de bom-senso alumiou a escuridão de toda minha ignorância, por alguns instantes, é claro. Navegar era preciso, não como uma essência superior à vida, mas algo mais simples, certeiro. A exatidão permeia os navegantes, destemorosos do erro a lhes custas a vida. Já viver, não. Quais os passos, as ações humanas que são precisas, exatas como o vôo do passaro, fiéis como o tic-tac do relógio. Viver era a interpretação de meu mestre, o espanto de uns e a felicidade de outros tantos.

Hoje, vejo não ser tão obvia essa interpretação. Os próprios versos da seqüência comprometem meu pensamento. Espero não fazer mau juízo do poeta. É apenas uma ingênua forma de entender o poeta, a frase e a vida. A todos não espero uma forma precisa de viver, mas os autos e baixos, as loucuras de uma noite e o descanso do amanhecer. Viver de uma forma precisa é negar o choro e não sentir, assim, falta das alegrias.

sábado, 2 de agosto de 2008

Entre amigos

Não sei divisar o momento exato que passei a entender, ver ou sentir. A presença costumeira fazia parte da rotina, dos atos comuns do dia-a-dia às alegres festas aos finais de semana. Era uma sombra calma, porém por vezes tempestuosa. As discussões, os ataques momentâneos de raiva e de temor viviam lado a lado a um amor não dito, no entanto sentido. Éramos todos bons amigos. As horas vividas eram comuns: as velhas brigas, as mesmas discussões, as partidas alegres de futebol, as cervejas geladas após a escola. Não havia momento em que não tivéssemos um ombro amigo à nossa espera, uma voz calma, uma sabedoria inventada, criada para sanar a dor do amigo. Nossos passos até então seguiam juntos, unidos pela vontade comum. Logo chegariam ao fim as longas horas, os dias vazios ou cheios de desventuras, os meses eternos, os anos intermináveis de alegria e dor.

Um dezembro feliz, férias eternas de todo o infindável ensino básico. Despedíamo-nos das salas, do pátio, da cantina, dos funcionários, dos professores. Mas havia um laço difícil de ser quebrado: os amigos. Ninguém sabia ao certo o que iria ser. Quem sabe o tempo afugentasse eternamente as lembranças dos colegas, de todo mundo. Quem sabe viveríamos até o fim a roda com violão, cerveja e ideologias adolescentes. Foi um tempo incerto. A rotina de casa para escola se tornara a rotina do quarto para a sala. Os amigos eram agora virtuais. Chego a lembrar de Werther, em seus sofrimentos, mandando cartas a seu amigo Wilhelm, reunidas no fabuloso livro de Goethe. Nos escritos lhe contava de suas alegrias, seus amores, suas tristezas. Mas a nós, nem mesmo a beleza da escrita fora legada. Lembro de Novembro, Flaubert em seus devaneios de solidão e de amor por mulheres desconhecidas. Era um vazio.

Hoje, quase quatro anos após o fim daquelas aulas, não sei precisar o que se deu. Os amigos, guardo alguns, talvez estes com correntes eternas. Novos rostos aparecem, somem, outros parecem resistir ao tempo. Certo dia tentei ver qual a vida humana que não precisasse de tal coisa, simples até. Percorri os dias da semana, não havia um em que eles não estivessem. A morte de Rémy, em As Invasões Bárbaras, retrata o fim junto a eles. Cercado por amigos da faculdade, por sua esposa e seu filho, o homem vivia seus últimos momentos relembrando os vinhos que beberam, os lugares por que passaram, as idéias que tiveram. Os sabores, os aromas, as paisagens, pouca coisa teria importância se não fosse compartilhada. Os sentimentos devem ser ditos e compreendidos, disto vem o prazer da companhia.

Andar pelas ruas da cidade, tão vistas e sentidas pelo passar dos anos, nos remete a um tempo em que caminhar era a diversão, correr era a loucura. Cada rua em torno daquela escola nos traz imagens, sons, gestos, muitos destes ingênuos e vulgares até. Chego a reencontrar, em lugares comuns, amigos, inimigos, tantos que antes preenchiam minhas horas, reprimiam meu tédio de adolescente. Alguns me reconhecem, outros tantos vivem cegos. Partilho agora, com os bons amigos que restaram, o pouco que sobra para compartilharmos: um bom dia, um abraço, a boa sorte, muito obrigado!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

As drogas artísticas, a droga social

Meus primeiros contatos com as drogas foram artísticos, de modo indireto. Na música eram os vocalistas, os guitarristas, todos os integrantes de bandas cultuadas por milhares de jovens tão chatos e bobos quanto eu. Era a rebeldia que justificava o uso indiscriminado de qualquer substância que os fizesse sair deste mundo de sonhos inalcançáveis, de injustiças sociais, qualquer uma das milhares de desgraças da condição humana. Logo em seguida foram os livros, as obras ensaiavam a droga comum, o uso cotidiano e inquestionável dos somas (Admirável Mundo Novo), doces maravilhosos para uma sensação momentânea de calma e tranqüilidade, longe de toda a miséria. Após a arte veio a vida.

Nunca pude alcançar, em minha adolescência, tudo que nos seguia nestes atos ingênuos. Achávamo-nos loucos, admiráveis, diferentes. Ser diferente, em si é o grande sonho de todo jovem. Saímos, enchíamo-nos destes prazeres fugazes, comprados com alguns trocados dados por nossos pais. As sombras de nossas ações estavam ali, à nossa espreita. Tudo que fazíamos era coisa simples, mas marcaria de terror nossa memória nos dias vindouros. Sentados em bancos de praças, lugares sujos, não eram perceptíveis os enganos sucessivos que a ingenuidade adolescente nos trazia. As brigas, os choros, nossos lamentos, os sofrimentos de nossos pais. Certos momentos, parecíamos imunes à dor. Entretanto as lágrimas molhavam nossa face e borravam a maquiagem boba dessa idade triste.

Eram histórias de outros. Eram o que ouvíamos de nossos pais sobre familiares, amigos, alguns tão próximos que até mesmo a insensibilidade era atingida. Mortes, prisões, clínicas de reabilitação. Lá fora, era algo incabível: haveria tanta miséria assim nesse mundo sombrio? Aqui dentro ainda era algo fantástico, gostoso de ser sentido, de prazeres intensos, valeria a pena continuar. Não divisei ao certo o momento em que tudo começou a pesar. Os motivos, é claro, não eram os comuns. Não dei pela vida triste de um usuário, pela morte pecaminosa, pelas celas frias e sem o carinho de nossos pais. Dei pelo comum. Foi o comum que passei a ver. E foi o mesmo comum que encheu de tédio uma vida que horas antes era prazer. As ruas, as praças, tudo era manchado. Eram rostos novos, rostos antigos, gestos iguais, repetidos. A repetição esfaqueava meu peito, a banalidade aterrorizava meu espírito inquieto. Passei a odiar. Como um adolescente, que desejava ao máximo ser incomum, vivia a homogeneidade de gestos tão banais. Todos faziam o mesmo, viviam pelo mesmo. Era a minha morte.

Todo homem enxerga o grande problema social causado pelas drogas. Elas vivem em ruas, praças, casas, bares. Vivemos junto a ela. Não me faz mais efeito ver um jovem, na idade que tinha tempos atrás, viver por ela. O consumo é algo particular. É a produção e o percurso até o seu final o que nos trás o horror. O tráfico, o roubo, as milhares de mortes não valem o preço que se paga, não valem o prazer momentâneo. As sensações são fugazes, as vidas envolvidas também as são. Não me cabe prever o fim disso tudo, nem julgar a breve satisfação da mente inquieta. Enoja-me o senso-comum. Nossa vida segue um roteiro: as incógnitas, as insatisfações, o comum, a morte. Em toda a história permanecem as sombras de nossos atos mundanos, e em todo roteiro estas sombras nos perseguirão.

http://br.youtube.com/watch?v=bY8WhANmXNo



terça-feira, 15 de julho de 2008

O que é viver


Já me é dificultoso ouvir a canção dos dias e das madrugadas. Não sinto o tato, não vejo os lugares em que vagueiam meus olhares. Sou agora como o homem que não percebe o ato mecânico de viver. O mesmo céu, a mesma terra, os homens bons, as velhas histórias: todos se cansam de meus tão sonhados passos.

Era um menino pouco tempo atrás. Sonhava com amores vindos da vida e por ela idos. Não havia boca, nem mesmo corpo que meus lábios não tocassem. Eram os sonhos. Os sabores distintos, criados pelos homens, enchiam meu espírito de uma vida não sabida. Haveriam ainda terras, cidades encantadas, lugares onde os homens mal sabiam existirem.

Vivo feito morto, cego a tudo, sem braços nem pernas, surdo às canções que sonhara existirem. Andar às ruas é sem sabor, os lábios de uma deusa são como plástico, livres dos sabores adocicados de outrora. O que irá agora preencher os dias não vividos desta vida?

Julguei ter amado o céu, amei e odiei os homens desta terra. Li seus livros, vi suas encenações, enchi da mais pura beleza as horas que agora passam entediantes. Quem dera ser um Fausto, rendido ao desejo de ser a sabedoria e o conhecimento, e ainda assim subir aos céus; redimido de pecados e conhecedor de toda a vida.

Os desígnios traçados me ferem a alma, como hei de ferir o coração da mulher amada. Faltam-me os sonhos de outros tempos, faltam as doçuras desta vida. Desejo o gesto ingênuo do adolescente, em sua busca amarga por respostas. Sonho agora com as brincadeiras daquelas tardes, que traziam o sorriso ao rosto triste desta criança.