quinta-feira, 26 de junho de 2008

Há cem anos de uma nova cultura – A história da Imigração Japonesa no Brasil

Na história do homem e do mundo a transmissão de conhecimentos de pai para filho e de povo para povo foi a grande responsável pela evolução da própria humanidade. Há 500 anos, essa troca de conhecimentos teve início no Brasil. A descoberta do país pelos portugueses, a convivência destes com os índios e a chegada de escravos vindos da África caracterizam essa fusão de valores e costumes. Hoje, devido à facilidade de transporte e à comunicação, tornou-se impossível a não existência dessa miscigenação de povos, o que proporciona a multipluralidade cultural em cidades interioranas como Sorocaba, Itu, Salto e Indaiatuba. Este ano, podemos voltar no tempo para falar dessas diferenças de costumes, de religião, tudo que caracteriza um povo.

Um século após a grande onda imigratória no Brasil, discutir o que culminou essa miscigenação de culturas tão distintas se torna imprescindível. Hoje, italianos, alemães, portugueses, espanhóis, imigrantes de muitos países fazem a cultura brasileira. Porém nenhum desses povos se apresenta tão diferente em seus costumes e valores quanto os imigrantes japoneses. Vindos com o incentivo do Império nipônico da Era Meiji devido à miséria e o grande número de habitantes no Japão, os imigrantes sofreram para se adaptar ao Brasil. A comida, a religião, o clima tropical, o idioma, são apenas algumas das características que levou isseis (japoneses natos) ao sofrimento e até mesmo à morte. No navio Buenos Aires Maru, que atracou no Porto de Santos em 1934, Mitsuyo Mori viu seu irmão, ainda bebê, morrer. No novo país, após uma virose atingir toda sua família, a criança de 12 anos perdeu outro irmão, este com apenas dois anos de idade. “A viagem foi muito difícil, a adaptação também nos fez adoecer”, conta a senhora, hoje com 86 anos. Mitsuyo e sua família vieram no último navio antes da Segunda Guerra Mundial, na década de 30.

Anos antes, em 1908, chegava ao Porto de Santos o Kasato Maru e, na tripulação, quase 800 japoneses marcando o início da história da Imigração Japonesa no Brasil. A viagem de 52 dias teve fim em 18 de Junho. Após a chegada, os imigrantes firmaram contrato com seis fazendas do interior paulista distribuídas na região de Ribeirão Preto, em São Manuel e Itu. Foi nessas fazendas que os nipônicos descobriram a real situação brasileira. O Museu da Imigração Japonesa retrata a trajetória dos imigrantes no Brasil: “Os imigrantes da primeira fase (até 1941) chegaram ao Brasil dispostos a trabalhar de três a cinco anos, economizar para retornar ao Japão. Poucos deles conseguiram atingir esse objetivo”. Os baixos salários pagos pelos fazendeiros e as condições precárias de moradia influenciaram na fuga dos imigrantes das fazendas aonde foram morar e trabalhar. Nascido no Japão, Tomoo Handa descreve no livro O imigrante japonês outras dificuldades à vida dos japoneses nas fazendas “o jeitão de superioridade do administrador, a arrogância do fiscal e o mau atendimento do intérprete”. Para ele, tudo contrariava os imigrantes. A partir de então restava a eles a busca pela liberdade e, um ano depois, apenas 191 ainda trabalhavam nas fazendas.

Hoje, livres, as tradições, os traços, modos de viver tão peculiares, ainda são mantidas. Shogo Handa, 79 anos, buscou transmitir isso a seu filho. O homem fala com orgulho de Francisco Handa, monge e historiador. “Ele nasceu aqui no Brasil, mas é um japonês”, diz o senhor Handa. O filho vai escrever, ainda esse ano, um livro sobre a imigração japonesa no país. Certamente, escreverá que aqui, cem anos após a chegada dos primeiros japoneses, vivem cerca de 3,5 milhões de descendentes e, seus ritos, seus traços e suas histórias permanecem intocáveis.

Para homenagear os imigrantes, várias cidades do Estado de São Paulo, como Sorocaba, Indaiatuba e Salto estão promovendo festas, construindo praças, parques e, até mesmo, decretando 18 de junho como o dia da imigração japonesa no Brasil. Homenagens como estas possibilitam que todos conheçam um pouco da cultura e da história do povo nipônico.

Traços Marcantes

Sentado a seu lado pouco pude arrancar de sua história marcada por acontecimentos infelizes, acarretados pelos duros anos de adaptação ao Brasil. Mitsuyo Mori, ou dona Maria - como é chamada pela população de Salto, cidade adotada por Mori, seu marido e seus cinco filhos em 1962 – relembra toda sua trajetória nessa terra quente e “calma”, como ela diz. Dos longos dias de viajem ela guarda más recordações, a doença que assolou toda sua família, a morte de dois irmãos, a vida dura na fazenda de café. Porém não lamenta, cita as conquistas. “Aqui trabalhei e consegui que meus filhos vencessem na vida”, diz a senhora que, apesar dos 86 anos, mantém seus cabelos negros, traços típicos de seu povo.

As tristezas dos tempos da imigração não foram únicas, após dois anos na nova cidade, dona Maria, perdeu seu marido. Sozinha criou seus filhos, montou uma pensão, depois uma padaria. Nelson, seu filho mais velho, então com 17 anos, teve que trabalhar. “Ele entrou e se aposentou na mesma empresa, saiu de lá chefe”, fala com o mesmo tom de orgulho de todos seus filhos e netos.

Ansioso, perguntei o que todos perguntariam, voltaria para o Japão? Sem pensar muito ela diz que não. “Fui lá há alguns anos, não gostei”, afirma. Para ela, a correria, os avanços no país apagaram as imagens que ainda guardava de sua terra natal.


domingo, 22 de junho de 2008

O fim do “Deus Pai” para um adolescente


Aos 16 anos deixei de acreditar em Deus. Passava dias, noites imaginando, sonhando com a existência ou não de um ser superior a mim. Lembro que na escola, segundo ano do ensino médio, era essa a minha vida, minha razão de existência: acreditar ou não. Passava horas discutindo com um amigo, outro na mesma duvida. Dizíamos heresias, blasfêmias, depois riamos de nossa desgraça: “E se ele existir?” perguntava um. “Aí estamos perdidos” respondia outro. Nosso diálogo era como facada no coração de outros colegas católicos e evangélicos, sorte a nossa não haver nenhum fanático entre eles.

O tempo passou, estávamos no último ano, as coisas pioraram. A literatura agora me enchia de argumentos, a própria bíblia era minha aliada. Eu bradava a cada descoberta: “Agora é fato, Deus não existe!”. Tudo para infelicidade de minha mãe, minha avó e minha tia, todas católicas. Era um tempo de alegria para um jovem adolescente.

Hoje, cinco anos após toda essa baboseira, posso dizer que o ateísmo presente em mim nada mudou em minha forma de ver o mundo. Discutir com um católico ou evangélico já não tem a mesma graça, nem lembro mais do universo de “provas” que consegui sobre a não existência do “Todo Poderoso”. Posso dizer que deuses existem e são aqueles que nos fazem mover o mundo em busca de coisas passageiras, boas ou más. O dinheiro, o amor, o poder, são três elementos capazes de enlouquecer qualquer homem, de destruir ou construir um mundo.

Sei que essa idéia-fixa não está totalmente inerte no universo louco dos meus pensamentos. Ela voltará no momento em que entrar na igreja e esperar minha noiva, linda, vestida de branco, com seu véu, sua grinalda, como sempre católica. Voltará no momento de educar meus filhos quanto aos valores desse mundo ingrato que lhes deixarei de herança. E voltará, principalmente, quando estiver nos últimos momentos dessa existência que me encheu de prazeres.

Posso dizer que, ainda agora, vivi muitas coisas que preencheram meu ser de aventuras, amores, devaneios e outros elementos mundanos. As drogas foram meu vício, as letras meu entretenimento, as músicas meus delírios mais humanos. Lembro da poesia das imagens, das palavras e das idéias de certo filme. É essa obra que se ensaia em minha mente quando redescubro a realidade mortal da vida dos homens. “As invasões bárbaras”, era este. Os prazeres do mundo, as recordações, e a melhor morte já encenada: o fim de um velho ateu.

As hipocrisias humanas sempre hão de acalentar as velhas formas entender o mundo: ser ateu é ser vazio de espírito, é não ter amor a si e ao mundo, é ser ingrato com um ser que jamais viram nem entenderam. A meus filhos direi apenas que nasci assim, vivi muito bem e feliz com essa idéia. Que a morte é fato certo para qualquer um, ateu ou não. E que o fim de Deus para um adolescente é o início da vida, com seus maiores desejos.