quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Morte do Caixeiro Viajante, uma morte comum


O título do filme, adaptado da peça de Arthur Miller, de mesmo nome, já nos conta o seu fim. Willy Loman é o idoso caixeiro viajante, que nutre o sonho do sucesso de seu filho Biff (John Malkovich) e o seu. Arrasado pelo realismo que cerca não apenas a ele, mas a todos nós - Biff não tem sucesso, pelo contrário, é um fracassado; e no trabalho, Willy não consegue a promoção que sonhara durante toda sua vida - nasce aí “A morte do caixeiro viajante”.

Dustin Hoffman nos mostra a dor, uma dor escondida por uma máscara sempre forte de esperança e hipocrisia. Durante o filme, a dor chega a transpassar a tela da TV e vem até nós, a angústia do homem comum, com um sonho comum se torna nossa. Fica difícil assistir Willy em seu mundo utópico e vê-lo na miséria, mas muito mais difícil ainda é largá-lo lá, sozinho. Sozinho em seu enterro, apenas com o amor de sua esposa e a ignorância de seu outro filho, que não se sabe o nome.

Willy não está sozinho em seus sonhos. Ele reflete um mundo de pessoas, cujo único objetivo é vencer, ou ser como ele, um fracasso. Está aí a simplicidade da obra: Willy não quer nada que qualquer um de nós não queira. Seu sonho é ter um emprego digno e que seu filho também não seja um renegado.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Entre vontades e preconceitos


Todos têm o direito de serem livres, de buscarem sua felicidade, tudo que os faça bem e faça sua própria identidade. Um homem não seria um homem sem suas próprias vontades, sem as aspirações que o faz agir no impulso, que o faz construir o mundo através da arte, do trabalho e do convívio em sociedade. “... as músicas, as danças, os discos...” como diz a música é o que cria a identidade, a cultura de cada homem. A cultura é o que nos diferencia, nos faz ser o que somos e, também, o que leva alguns a rejeitarem os outros, a guerrear e, a matar.

Ao longo da história humana as diferenças, sejam religiosas, políticas, artísticas e até mesmo de sexo foram os verdadeiros motivos por toda a luta, todo o sangue derramado. Pais e filhos, amigos, vizinhos lutando pela intolerância, pela não aceitação no outro do que não há em si. Na Alemanha de Hitler, vizinhos denunciavam vizinhos e até familiares eram entregues para um regime racista e intolerante.

O fim do Nazismo deu-se, enfim, mas não levou consigo o preconceito, o olhar de desprezo pelo que é diferente, não levou nem ao menos a guerra. O dia-a-dia de discussões religiosas, de guerras entre punks e pagodeiros, brancos e negros parece não chegar ao fim.

“Ninguém é igual a ninguém...” continua Humberto Gessinger. E continuamos também lutando e esperando o dia em que cada um enxergar o quão humano é ser negro ou branco, é ser católico ou muçulmano, é querermos para nós o que achamos ser o melhor.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ensaio da música através dos tempos







“Não existiria o som se não houvesse o silêncio...” ouvi ao despertar Lulu Santos. Amanheci tranqüilo, satisfeito por poder respirar, por mais um dia. Uma manhã tranqüila, lá fora os pássaros sem compraziam com seus cantos. Lembrei de algumas músicas, haviam muitas, 20 anos ouvindo. Rádios, cd’s, dvd’s, minhas músicas no computador. Recordei velhos tempos, tal qual saudosistas, apesar da pouca idade sempre fui um velho. Já havia chorado ouvindo o “Lembra de mim” de Ivan Lins; tentava lembrar de amores que não tive, como é humano ser um bobo. Foram tantas as emoções como diria o chato do Roberto Carlos.

Certo momento me vi em um triangulo, lutava por um amor, não sabia quem era. Lembro da canção, ela dizia “esqueça se ele não te ama”, ou algo parecido. A doce voz da Marisa Monte me fazia acreditar, eu estava apaixonado, não duvidaria disso, estragaria o encanto. Sonhei com esse amor, mas era manhã, sonhei acordado. Nem bem anoitecia dei por perdida a batalha, perdi o meu amor. Chorei ao som de algum sertanejo qualquer, não havia apenas músicas boas. Mas as boas que sabia me traziam as mais diferentes sensações.

Ouvi certa vez “Construção” de Chico Buarque, não havia nada de extraordinário, apenas um pedreiro ou servente que havia caído do alto do edifício em construção. Apenas isso, torço para que vocês acreditem que esse “apenas” foi uma ironia. Mas o fato existente, a sensação, foi um arrepio. Senti minha pele retrair e um calafrio que me percorria a espinha. A música trouxera um sentimento de tristeza, o fato era simples, porém cruel e real. Contudo eu me lembrava, não era a primeira vez. Como nossos pais, cantada na voz de Elis, mostrava o intelecto de Belchior, o compositor. Belchior, como Chico, também sabe o ponto exato que suas canções podem atingir. Mas não só eles, adicionemos à lista um Tom, o Jobim. Contamos também Toquinho, as vozes de Bethânia, de Gal, as composições e a voz tão inebriantes de Adriana Calcanhoto. É, a música já havia me dado muitas coisas. Senti muita raiva também, isso é certo.

Creio que uma das piores coisas de não se morar em um lugar isolado, distante de todo o mundo, é o fato de termos que ouvir o que nossos vizinhos ouvem. Já fui atordoado com tantos funks, raps, pagodes, alguns de grande sucesso - não cito nomes para não manchar o papel – pensei certa vez que iria enlouquecer, entretanto estou vivo. Porém é comum nesse mundo existirem coisas boas e ruins, algumas bem ruins, devo dizer.

Para finalizar, uma boa música, mas não sei. Sim, é algo que me atordoa agora, não sei mais o que ouvir. Certo seria ouvir coisas novas, mas não confio nesses produtos que estão à venda hoje em dia. Talvez coisas velhas que ainda não conheci, devem existir. Melhor fazer como um sonhador, ir rompendo fronteiras, chegando aos mais distantes horizontes. Mas claro, sempre fugindo da vizinhança.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Mais que um simples clipe...

Um angustiante vídeo do Pink Floyd, uma das maiores bandas de todos os tempos. A mensagem: o fim desse mundo de pessoas que se matam. A guerra atômica, o sangue escorrendo na sargeta, o velho monstro humano, sonhado e inventado pelo próprio homem.

Goodbye BlueSky é muito mais que uma simples canção, é o pensamento do real e constrangedor, da auto-destruição humana. Impossível assistir a esse clipe com indiferença: veja e sinta, mas não chore; a degradação chega a ser prazerosa, o fim é para todos nós, os culpados.

O despertar da humanidade...

A cidade estava ensandecida, não havia ordem, muito menos progresso. Políticos loucos roubavam até o dinheiro de seu próprio salário, e assim diziam que trabalhavam sem receber nada, apenas para o bem da população.

Atento a tudo isso chegou à cidade Simão Bacamarte, médico, notável estudioso da loucura, dos desvios humanos de conduta. Logo ao pisar na cidade, Simão vê que ali será o centro de todas suas pesquisas que se estenderão pelo mundo. E com a ajuda de amigos, homens poderosos da cidade e alguns políticos que pôde comprar com o dinheiro que havia ganhado durante muito tempo de trabalho, ele constrói a Casa dos Espelhos. Uma espécie de hospício destinado ao estudo de políticos corruptos e desonestos.

(Entra Simão e seu amigo Teodoro, um vendedor de ervas, conhecido em toda a cidade).

-Sabe Teodoro. Criei essa casa com o desejo de recolher todos os senadores, deputados, ministros, enfim, todos os políticos que só pensam em si mesmo, corruptos. Coloquei espelhos por toda a casa para que talvez assim eles se olhem e veja o quanto são nojentos os seus atos. Eles assim vão sentir que tudo o que fazem é nefasto, e mudem com isso.
-Mas não será nada fácil fazer com que eles queiram ir para a casa buscar tratamento. Você sabe como todo louco desconhece sua loucura, não a aceita. E ainda me parece que eles são muito unidos, não deixariam que você pegasse ninguém.
-Oh! Como não! Ontem mesmo trouxe três. Eles foram responsáveis pelo desvio do dinheiro da merenda escolar. Seus colegas realmente não queriam entregá-los. Mas dei apenas algumas notas de cem e pude trazê-los.
-Com apenas algumas notas de cem? É incrível como eles se vendem fácil.
-Sim. O dinheiro é única coisa que importa a cada um deles. E vou agora mesmo buscar mais quatro. Assim que peguei os três larápios eles vieram me dizer que os entregaria a um preço muito mais acessível que o pago aos outros colegas.
-Oh! Que mundo, que pessoas.

(e saem os dois)

(Simão passeia sozinho, e depara com um político em campanha)

-Eu prometo que até mesmo a água que vocês consomem será gratuita. Darei emprego a todo pai de família assim como casa, e assim todos você terão uma vida confortável. Eu garanto, e podem anotar: se nada disso que lhes falei for feito, nunca mais votem em mim. (dizia todo empolgado)

(Simão, consigo mesmo)

-Levarei esse papudo para a casa. Esse tipo é um dos mais incríveis que já vi. Promete o mundo apenas para ser eleito. Mas vejam como todos eles olham fascinados para esse charlatão.
Após levar o homem para a casa, Simão é parado na rua por uma mulher.

-Por que o senhor levou o Dr. Pintado para a casa? Saiba o senhor que ele é um político que faz. Um homem honesto como dificilmente se vê por aí.
-Claro minha senhora. Venha, me acompanhe. Levarei a senhora a ter com ele.
-O senhor vai tirá-lo não vai? Senão vou ter que escolher outro para dar meu voto. E outro homem honesto como ele é difícil de encontrar na política.
-Sim, sim eu o tirarei da casa o mais rápido possível. – diz o homem puxando a mulher pelo braço.

(Simão, atravessa o palco ao lado de Teodoro)

-É interessante que existam tantas pessoas que realmente acreditam nesses loucos. Anotarei e estudarei também essa patologia. É algo também muito útil para todos nós. - diz Simão.

(As experiências de Simão acabam levando muitos políticos para a casa verde)

-Simão, Simão! A Câmara municipal está parada. Nenhum projeto pode ser mais votado. – diz ofegante Teodoro.
-E o que tem de anormal isso? Veja, por isso que trabalho dia e noite atrás de uma solução, algo que acabe com toda essa vagabundagem.
-Não é isso Simão. É que três quartos dos vereadores da cidade estão na Casa dos Espelhos. Sem os que estão em tratamento aqui, nada pode ser feito. Nenhum projeto é elaborado e aprovado.
-Mas isso sempre ocorre. Não vai fazer diferença se eu der alta a eles. Ora Teodoro você precisa entender que esse estudo é muito mais importante. Venha aqui vamos ver como andam esses políticos.

(Saem e entram os políticos internados) Espelhos nas paredes: eles se admiram o dia inteiro.

Entra Simão (com ar de angustiado, olha para todos eles e fala consigo mesmo)

-Estive errado todo esse tempo. Já tentei de todas as formas eliminar esse jeito político, essa falta de amor com seus companheiros de trabalho, com o povo. Mas não há jeito. A desonestidade é própria do ser humano, é imutável. Como pude estar cego a tudo isso? Não vi que eles são normais, não tem nenhuma patologia. Sendo assim – para um pouco para pensar – Sendo assim os loucos são os que não roubam, os que são honestos. Se a imensa maioria é corrupta, desonesta, os loucos são os que não tem nenhum desvio moral, os incorruptíveis. São deles que devo me ocupar. Estudarei todos os que não pude trazer aqui, pois não haviam apresentado desvios de conduta. Vou agora mesmo buscá-los, devem estar trabalhando a essa hora.

(Simão põe todos os políticos internados para fora, e vai atrás dos que com certeza estão trabalhando)

-Mas Simão, como você pôde prender os poucos políticos que ainda trabalhavam em nome do povo? Logo eles que ficavam por longas horas criando novos projetos em nome do bem-estar e da justiça? – pergunta Teodoro.
-Sim. Mas cheguei à conclusão de que são eles os loucos. Você disse bem, como podem ficar por longas horas apenas trabalhando para a população? Enquanto seus colegas roubam e não fazem nada?
-Oras, mas isso não significa que sejam loucos.
-Pode ser, mas de qualquer forma os estudarei. Verei se eles realmente são honestos. Se forem, talvez assim eu possa chegar a uma formula de fazer com que os outros sejam como eles. Assim teremos uma leva de políticos honestos do senado, na câmara dos deputados, nos ministérios, enfim, em todos os lugares.
-Sim! Brilhante. Se conseguirmos fazer com que todos eles sejam honestos e trabalhadores, tudo será perfeito.

(Passado algum tempo de muito estudo e observação)
Simão e Teodoro pelos corredores da Casa dos Espelhos

-Andei observando dia após dia cada um dos enfermos. Com muitos testes e muita paciência cheguei à conclusão de que todos eles também têm desvios morais. – vai dizendo Simão a passos lentos.
-Como assim? – pergunta Teodoro.
-Fui dando a cada um doses bem medidas de incitações ao crime para que aparecessem esses desvios. Deixei que minha carteira caísse na frente deles por varias vezes. Deixei dinheiro em alguns cantos da casa.
-E? O que aconteceu? – perguntou Teodoro com ansiedade.
-No começo eles me devolveram a carteira, sem tirar um trocado para si. Mas com o passar do tempo, notei que ao devolverem faltavam sempre duas ou três notas. E por fim, não sobrou nada, tiravam tudo.
-Nossa! É difícil de acreditar nisso. Eles pareciam ser tão honestos.
-Já as notas que deixava espalhado por alguns lugares na casa sumiram todas. Não devolveram nenhuma.
-São todos eles corruptos!
-Mas espere. Não lhe contei o que passei a observar a seguir.
-Pois conte. – pediu o vendedor de ervas.
-Nos jantares, almoços e cafés da manhã percebi que uns foram boicotando os outros. Sempre um queria ter o lugar do outro na mesa, pois dizia que aquele era o melhor lugar. Queriam o melhor bife, o maior pão. Alguns chegavam a oferecer o dinheiro que haviam conseguido com meu teste apenas para ter direito a comida do outro.
-A Casa dos Espelhos acabou fazendo o contrário. Transformou os honestos em desonestos.
-Não. Não foi o contrário. – começou Simão parando para pensar a seguir. – Acabei de elaborar uma nova teoria. Veja bem.
-Fale.
-Todo homem nasce igual. Somente o meio é que os fazem diferentes. Sendo assim, alguns tiveram mais oportunidades que os outros. Ou seja, os que vieram primeiro para a casa já haviam passado por varias oportunidades de roubar, desviar dinheiro, de corromper e ser corrompido. Já esses que aqui estão ainda não haviam passado por isso.
-Não entendi. Explique melhor.
-Todo homem é corrupto. Todos são desonestos. Mas somente o meio em que vivem pode revelar isso.
-Ah! Por isso que no Brasil existem tantos políticos desonestos?
-Exato! Veja, somente com algumas oportunidades que dei todos eles revelaram seus desvios.
-Oh! Estamos perdidos.

(E aparecem os “enfermos”, um roubando a carteira do outro).

-Agora soltarei todos eles. Fracassei! Somente a teoria ficará. A humanidade esta perdida para todo o sempre. – diz Simão.

(Nas ruas as pessoas comentam)

-Aquele médico lunático! Ele é o grande culpado por estarmos sozinhos agora.
-O que faremos agora? Uma revolução?!
-Vamos à Casa dos Espelhos e a poremos no chão! E acabaremos também com aquele louco. Ele destruiu o resto da esperança que tínhamos.
-É. Isso, vamos!

(Teodoro entra, sozinho, no palco e começa a ouvir gritos. É o povo que marcha rumo à casa de Simão, mas o encontram pelo caminho)

- Vejam! Ele é amigo daquele impostor, charlatão! – grita um homem no meio da marcha.
- Sim já o vi diversas vezes andando com ele! – grita outro.
- Vamos pega-lo, ele também deve ser condenado. – grita um mais exaltado.
- Sim! Prendam-no! – grita todos.

(Na casa Simão conversa com sua mulher, quando Teodoro entra assustado na casa)

-Foi um trabalho perdido. Tanto tempo. E meu sonho de ver esse mundo mais justo e igual. Tudo está perdido.
-Não fique assim. Não é culpa sua que esse mundo seja assim. Você foi, na verdade, um herói. Olhe, estava vendo. Como a população fez questão de ajudar pagando para que você tratasse os bandidos, acumulamos muito dinheiro, agora temos que devolver. – diz a mulher mostrando o grande baú cheio de dinheiro.
-Sim. Devolveremos tudo.

(Teodoro entra)

-Simão, Simão! O povo está revoltado.
-Como assim Teodoro? – pergunta o doutor.
-Eles vêm pela rua, armados, querendo nosso sangue!
-Calma Teodoro, você está assustado, até agora não ouvi nenhum grito.
-Eles vêm! Ouça! Corram, fujam! – grita o homem e sai correndo

(Aqui começam os gritos, os três se assustam)

-Destruam a casa e capturem aquele impostor. Ele acabou com nossa esperança. – gritavam as pessoas na rua.
-O que está acontecendo? O que eles querem? – pergunta aterrorizada a mulher do doutor.
-Querem se vingar. Dizem que matei suas esperanças de ter um mundo melhor. É verdade, acabei com os poucos homens que ainda lutavam por um mundo mais justo. Eles têm razão. Eu destruí a esperança que tinham de ver esse mundo mais justo, mais humano. Eu vou. Entregarei-me. Devo pagar pelo que fiz! – diz Simão.
-Não. Deve haver outra solução. – suplicava a mulher.
-Não há solução! Eu vou!
-Há sim. Pensaremos em algo.
-Em que? Tudo está destruído.
-O dinheiro. Vamos entregar o dinheiro, eles pararão na hora. E ainda ficarão a seu lado.
-Você quer que eu compre minha liberdade com o dinheiro do povo? Que eu dê a eles o que é deles? – perguntou Simão olhando assombrado para sua esposa.
-O que há de mal nisso? Vamos. Eu entregarei. – disse a mulher arrastando o baú.
-Céus! Até ela?! – disse o homem já ajudando a esposa a carregar o baú.

(Os dois chegam até o povo e jogam o baú a seus pés)

-Vamos fale algo que os traga para seu lado. – incita a mulher.

Simão olha para ela, ainda em choque, mas logo começa:

-Vejam o que conseguimos. Conseguimos arrancar o dinheiro daqueles ratos corruptos. Eis aqui. Ao povo o que é do povo! – diz empolgado Simão Bacamarte.
-Ao povo o que é do povo! – repetiram os ex-revoltados. –E viva o doutor Simão Bacamarte! Viva! – continuaram alguns exaltados.

Baseada em O Alienista, obra de Machado de Assis.
Essa é uma adaptação para o teatro da faculdade, infelizmente não teve proveito, porém aí está, escrito, e viverá mais que a mim e a vocês.

A tela dos desprazeres




Todas as coisas ficaram perdidas. O tempo ficou curto, as palavras pararam de ser ditas, deixando apenas o vazio, a falta de companheirismo, de uma voz amiga, de um conforto. A televisão deixou para trás o principio da evolução humana, a conversa, a transmissão de conhecimentos, de cultura de pai para filho, de amigo para amigo, que atravessaram séculos e parecia ser imortal.
Hoje na maioria dos lares a primeira coisa que uma criança faz depois de acordar e fazer seu ritual matinal é ir para frente da telinha, onde ficará por horas, sem dizer uma palavra, feito um zumbi, hipnotizado por algum desenho ou filme. A televisão desligou as pessoas de um mundo que está acontecendo a todo minuto. Enquanto um programa é apresentado, milhares de coisas acontecem para o bem ou para o mal de um mundo carente de liberdade, de paz e de união.
“A televisão me deixou burro, muito burro demais”, dizia a letra da musica composta por Arnaldo Antunes na década de 80. Mas a tela do atraso não deixou apenas uma juventude alienada, sem saber o que se passa a seu redor, imitando artistas que representavam uma rebeldia sem compromisso com os verdadeiros valores morais. Deixou de lado a relação entre marido e mulher, entre pais e filhos, amigos, vizinhos. A televisão, símbolo de um avanço tecnológico que nos permitiu infinitas descobertas se tornou um de nossos maiores atrasos.
A televisão é também um símbolo da falta de tempo de uma sociedade que trabalha por horas e não tem tempo nem mesmo para ler um jornal, ou um livro. E assim recorrem a um noticiário rápido que apenas joga um emaranhado de noticias na cabeça do já cansado telespectador. E também à novelas que se repetem todos os anos mudando apenas seus atores para demonstrar que aquilo é algo absolutamente novo, tentando impor emoções e fantasias em uma população cansada do estresse do dia-a-dia. A televisão se tornou uma fuga para todos os problemas, uma saída momentânea de um problema que não tem fim.
Mas as pessoas estão cansadas de tanta história repetida, tanta busca pelo que causa uma dor irreparável, não querem mais o sangue que é demonstrado todos os dias em nome de uma audiência que se baseia no sofrimento, na dor humana. Queremos algo que nos faça ver que nem tudo está perdido, ainda temos pelo que brigar, pois não miramos nossos atos pelo que se passa em um mundo fantasioso e apelativo. A televisão terá que mudar para manter sua audiência no mesmo nível, sua programação está esgotada, não trás mais nada de novo, só resta agora esperar seu fim, ou seu renascimento.

O pequeno grande...


Desde muito tentava descobrir o que nos diferenciava dos outros animais, o que nos fazia superiores, acima das demais espécies. No começo pensei que fosse devido o fato de termos um cérebro maior, pensávamos mais, raciocinávamos. Talvez por causa do nosso domínio sobre a natureza. Por conseguirmos viver em sociedade. Mas não, nenhuma afirmação era intocável, inabalável. Somente após certo tempo fui descobrir o elemento fundamental da nossa existência. O que nos faz superiores é algo tão simples e banal, tão pequeno e comum, que com certeza muitos talvez ainda não o tenham glorificado, aclamado, idolatrado. Nosso pequeno polegar. Um pequeno no tamanho, mas um gigante em sua importância.
Logo que o descobri, abandonei a idéia de que éramos superiores graças ao nosso grande poder de raciocínio, a nossa notória e inventiva mente, e ao nosso imenso poder sobre a natureza. Se raciocinássemos, não nos aniquilaríamos a todo instante com novas bombas de extermínio em massa, novas armas capazes de destruir toda a raça humana em segundos levando consigo todos os animais, todo o planeta. Não inventariamos novas guerras em nome de ideais que buscam a redenção, mas que nos levam à destruição, ao extermínio. Evoluiríamos a nossa mente. Seriamos deuses capazes de inventar o amor, não só como uma palavra, mas como um sentimento superior. Criaríamos a justiça, proclamaríamos o perdão e exterminaríamos a fome, toda a miséria humana, toda espécie de tormentos e angústias. Mas não, não somos deuses. Não pensamos, nos matamos. Não evoluímos, voltamos sempre à pré-história, e aí somos homens da caverna, destruímos tudo com o pensamento ingênuo de que tudo é eterno.
Nossa única evolução (que não é nossa) são esses dois polegares, que nos propiciaram construir o mundo com nossas próprias mãos. Deles vieram nossos arranha-céus, pudemos voar construindo máquinas que vencem a gravidade, nossas casas, nossas ruas com seus automóveis. Criamos uma máquina capaz até mesmo de nos substituir em trabalhos difíceis e repetitivos. O que dizer então das coisas simples que somos capazes de fazer. Qual outro animal consegue segurar um copo de água com tanta perfeição. Como utilizaríamos os talheres sem esses dois polegares que, inclusive, possibilitam-me escrever este artigo. Somente eles nos fazem diferentes. Somente eles nos fazem superiores.
Portanto, não nos vangloriemos por termos raciocínio, por pensarmos e assim dominarmos os outros animais. Não somos os donos do mundo, apenas o usufruímos. Não somos os mais inteligentes, apenas supomos isto. Apenas temos um polegar, a única coisa útil existente em cada um.