quinta-feira, 24 de julho de 2008

As drogas artísticas, a droga social

Meus primeiros contatos com as drogas foram artísticos, de modo indireto. Na música eram os vocalistas, os guitarristas, todos os integrantes de bandas cultuadas por milhares de jovens tão chatos e bobos quanto eu. Era a rebeldia que justificava o uso indiscriminado de qualquer substância que os fizesse sair deste mundo de sonhos inalcançáveis, de injustiças sociais, qualquer uma das milhares de desgraças da condição humana. Logo em seguida foram os livros, as obras ensaiavam a droga comum, o uso cotidiano e inquestionável dos somas (Admirável Mundo Novo), doces maravilhosos para uma sensação momentânea de calma e tranqüilidade, longe de toda a miséria. Após a arte veio a vida.

Nunca pude alcançar, em minha adolescência, tudo que nos seguia nestes atos ingênuos. Achávamo-nos loucos, admiráveis, diferentes. Ser diferente, em si é o grande sonho de todo jovem. Saímos, enchíamo-nos destes prazeres fugazes, comprados com alguns trocados dados por nossos pais. As sombras de nossas ações estavam ali, à nossa espreita. Tudo que fazíamos era coisa simples, mas marcaria de terror nossa memória nos dias vindouros. Sentados em bancos de praças, lugares sujos, não eram perceptíveis os enganos sucessivos que a ingenuidade adolescente nos trazia. As brigas, os choros, nossos lamentos, os sofrimentos de nossos pais. Certos momentos, parecíamos imunes à dor. Entretanto as lágrimas molhavam nossa face e borravam a maquiagem boba dessa idade triste.

Eram histórias de outros. Eram o que ouvíamos de nossos pais sobre familiares, amigos, alguns tão próximos que até mesmo a insensibilidade era atingida. Mortes, prisões, clínicas de reabilitação. Lá fora, era algo incabível: haveria tanta miséria assim nesse mundo sombrio? Aqui dentro ainda era algo fantástico, gostoso de ser sentido, de prazeres intensos, valeria a pena continuar. Não divisei ao certo o momento em que tudo começou a pesar. Os motivos, é claro, não eram os comuns. Não dei pela vida triste de um usuário, pela morte pecaminosa, pelas celas frias e sem o carinho de nossos pais. Dei pelo comum. Foi o comum que passei a ver. E foi o mesmo comum que encheu de tédio uma vida que horas antes era prazer. As ruas, as praças, tudo era manchado. Eram rostos novos, rostos antigos, gestos iguais, repetidos. A repetição esfaqueava meu peito, a banalidade aterrorizava meu espírito inquieto. Passei a odiar. Como um adolescente, que desejava ao máximo ser incomum, vivia a homogeneidade de gestos tão banais. Todos faziam o mesmo, viviam pelo mesmo. Era a minha morte.

Todo homem enxerga o grande problema social causado pelas drogas. Elas vivem em ruas, praças, casas, bares. Vivemos junto a ela. Não me faz mais efeito ver um jovem, na idade que tinha tempos atrás, viver por ela. O consumo é algo particular. É a produção e o percurso até o seu final o que nos trás o horror. O tráfico, o roubo, as milhares de mortes não valem o preço que se paga, não valem o prazer momentâneo. As sensações são fugazes, as vidas envolvidas também as são. Não me cabe prever o fim disso tudo, nem julgar a breve satisfação da mente inquieta. Enoja-me o senso-comum. Nossa vida segue um roteiro: as incógnitas, as insatisfações, o comum, a morte. Em toda a história permanecem as sombras de nossos atos mundanos, e em todo roteiro estas sombras nos perseguirão.

http://br.youtube.com/watch?v=bY8WhANmXNo



Nenhum comentário: