domingo, 22 de junho de 2008

O fim do “Deus Pai” para um adolescente


Aos 16 anos deixei de acreditar em Deus. Passava dias, noites imaginando, sonhando com a existência ou não de um ser superior a mim. Lembro que na escola, segundo ano do ensino médio, era essa a minha vida, minha razão de existência: acreditar ou não. Passava horas discutindo com um amigo, outro na mesma duvida. Dizíamos heresias, blasfêmias, depois riamos de nossa desgraça: “E se ele existir?” perguntava um. “Aí estamos perdidos” respondia outro. Nosso diálogo era como facada no coração de outros colegas católicos e evangélicos, sorte a nossa não haver nenhum fanático entre eles.

O tempo passou, estávamos no último ano, as coisas pioraram. A literatura agora me enchia de argumentos, a própria bíblia era minha aliada. Eu bradava a cada descoberta: “Agora é fato, Deus não existe!”. Tudo para infelicidade de minha mãe, minha avó e minha tia, todas católicas. Era um tempo de alegria para um jovem adolescente.

Hoje, cinco anos após toda essa baboseira, posso dizer que o ateísmo presente em mim nada mudou em minha forma de ver o mundo. Discutir com um católico ou evangélico já não tem a mesma graça, nem lembro mais do universo de “provas” que consegui sobre a não existência do “Todo Poderoso”. Posso dizer que deuses existem e são aqueles que nos fazem mover o mundo em busca de coisas passageiras, boas ou más. O dinheiro, o amor, o poder, são três elementos capazes de enlouquecer qualquer homem, de destruir ou construir um mundo.

Sei que essa idéia-fixa não está totalmente inerte no universo louco dos meus pensamentos. Ela voltará no momento em que entrar na igreja e esperar minha noiva, linda, vestida de branco, com seu véu, sua grinalda, como sempre católica. Voltará no momento de educar meus filhos quanto aos valores desse mundo ingrato que lhes deixarei de herança. E voltará, principalmente, quando estiver nos últimos momentos dessa existência que me encheu de prazeres.

Posso dizer que, ainda agora, vivi muitas coisas que preencheram meu ser de aventuras, amores, devaneios e outros elementos mundanos. As drogas foram meu vício, as letras meu entretenimento, as músicas meus delírios mais humanos. Lembro da poesia das imagens, das palavras e das idéias de certo filme. É essa obra que se ensaia em minha mente quando redescubro a realidade mortal da vida dos homens. “As invasões bárbaras”, era este. Os prazeres do mundo, as recordações, e a melhor morte já encenada: o fim de um velho ateu.

As hipocrisias humanas sempre hão de acalentar as velhas formas entender o mundo: ser ateu é ser vazio de espírito, é não ter amor a si e ao mundo, é ser ingrato com um ser que jamais viram nem entenderam. A meus filhos direi apenas que nasci assim, vivi muito bem e feliz com essa idéia. Que a morte é fato certo para qualquer um, ateu ou não. E que o fim de Deus para um adolescente é o início da vida, com seus maiores desejos.

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