sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O despertar da humanidade...

A cidade estava ensandecida, não havia ordem, muito menos progresso. Políticos loucos roubavam até o dinheiro de seu próprio salário, e assim diziam que trabalhavam sem receber nada, apenas para o bem da população.

Atento a tudo isso chegou à cidade Simão Bacamarte, médico, notável estudioso da loucura, dos desvios humanos de conduta. Logo ao pisar na cidade, Simão vê que ali será o centro de todas suas pesquisas que se estenderão pelo mundo. E com a ajuda de amigos, homens poderosos da cidade e alguns políticos que pôde comprar com o dinheiro que havia ganhado durante muito tempo de trabalho, ele constrói a Casa dos Espelhos. Uma espécie de hospício destinado ao estudo de políticos corruptos e desonestos.

(Entra Simão e seu amigo Teodoro, um vendedor de ervas, conhecido em toda a cidade).

-Sabe Teodoro. Criei essa casa com o desejo de recolher todos os senadores, deputados, ministros, enfim, todos os políticos que só pensam em si mesmo, corruptos. Coloquei espelhos por toda a casa para que talvez assim eles se olhem e veja o quanto são nojentos os seus atos. Eles assim vão sentir que tudo o que fazem é nefasto, e mudem com isso.
-Mas não será nada fácil fazer com que eles queiram ir para a casa buscar tratamento. Você sabe como todo louco desconhece sua loucura, não a aceita. E ainda me parece que eles são muito unidos, não deixariam que você pegasse ninguém.
-Oh! Como não! Ontem mesmo trouxe três. Eles foram responsáveis pelo desvio do dinheiro da merenda escolar. Seus colegas realmente não queriam entregá-los. Mas dei apenas algumas notas de cem e pude trazê-los.
-Com apenas algumas notas de cem? É incrível como eles se vendem fácil.
-Sim. O dinheiro é única coisa que importa a cada um deles. E vou agora mesmo buscar mais quatro. Assim que peguei os três larápios eles vieram me dizer que os entregaria a um preço muito mais acessível que o pago aos outros colegas.
-Oh! Que mundo, que pessoas.

(e saem os dois)

(Simão passeia sozinho, e depara com um político em campanha)

-Eu prometo que até mesmo a água que vocês consomem será gratuita. Darei emprego a todo pai de família assim como casa, e assim todos você terão uma vida confortável. Eu garanto, e podem anotar: se nada disso que lhes falei for feito, nunca mais votem em mim. (dizia todo empolgado)

(Simão, consigo mesmo)

-Levarei esse papudo para a casa. Esse tipo é um dos mais incríveis que já vi. Promete o mundo apenas para ser eleito. Mas vejam como todos eles olham fascinados para esse charlatão.
Após levar o homem para a casa, Simão é parado na rua por uma mulher.

-Por que o senhor levou o Dr. Pintado para a casa? Saiba o senhor que ele é um político que faz. Um homem honesto como dificilmente se vê por aí.
-Claro minha senhora. Venha, me acompanhe. Levarei a senhora a ter com ele.
-O senhor vai tirá-lo não vai? Senão vou ter que escolher outro para dar meu voto. E outro homem honesto como ele é difícil de encontrar na política.
-Sim, sim eu o tirarei da casa o mais rápido possível. – diz o homem puxando a mulher pelo braço.

(Simão, atravessa o palco ao lado de Teodoro)

-É interessante que existam tantas pessoas que realmente acreditam nesses loucos. Anotarei e estudarei também essa patologia. É algo também muito útil para todos nós. - diz Simão.

(As experiências de Simão acabam levando muitos políticos para a casa verde)

-Simão, Simão! A Câmara municipal está parada. Nenhum projeto pode ser mais votado. – diz ofegante Teodoro.
-E o que tem de anormal isso? Veja, por isso que trabalho dia e noite atrás de uma solução, algo que acabe com toda essa vagabundagem.
-Não é isso Simão. É que três quartos dos vereadores da cidade estão na Casa dos Espelhos. Sem os que estão em tratamento aqui, nada pode ser feito. Nenhum projeto é elaborado e aprovado.
-Mas isso sempre ocorre. Não vai fazer diferença se eu der alta a eles. Ora Teodoro você precisa entender que esse estudo é muito mais importante. Venha aqui vamos ver como andam esses políticos.

(Saem e entram os políticos internados) Espelhos nas paredes: eles se admiram o dia inteiro.

Entra Simão (com ar de angustiado, olha para todos eles e fala consigo mesmo)

-Estive errado todo esse tempo. Já tentei de todas as formas eliminar esse jeito político, essa falta de amor com seus companheiros de trabalho, com o povo. Mas não há jeito. A desonestidade é própria do ser humano, é imutável. Como pude estar cego a tudo isso? Não vi que eles são normais, não tem nenhuma patologia. Sendo assim – para um pouco para pensar – Sendo assim os loucos são os que não roubam, os que são honestos. Se a imensa maioria é corrupta, desonesta, os loucos são os que não tem nenhum desvio moral, os incorruptíveis. São deles que devo me ocupar. Estudarei todos os que não pude trazer aqui, pois não haviam apresentado desvios de conduta. Vou agora mesmo buscá-los, devem estar trabalhando a essa hora.

(Simão põe todos os políticos internados para fora, e vai atrás dos que com certeza estão trabalhando)

-Mas Simão, como você pôde prender os poucos políticos que ainda trabalhavam em nome do povo? Logo eles que ficavam por longas horas criando novos projetos em nome do bem-estar e da justiça? – pergunta Teodoro.
-Sim. Mas cheguei à conclusão de que são eles os loucos. Você disse bem, como podem ficar por longas horas apenas trabalhando para a população? Enquanto seus colegas roubam e não fazem nada?
-Oras, mas isso não significa que sejam loucos.
-Pode ser, mas de qualquer forma os estudarei. Verei se eles realmente são honestos. Se forem, talvez assim eu possa chegar a uma formula de fazer com que os outros sejam como eles. Assim teremos uma leva de políticos honestos do senado, na câmara dos deputados, nos ministérios, enfim, em todos os lugares.
-Sim! Brilhante. Se conseguirmos fazer com que todos eles sejam honestos e trabalhadores, tudo será perfeito.

(Passado algum tempo de muito estudo e observação)
Simão e Teodoro pelos corredores da Casa dos Espelhos

-Andei observando dia após dia cada um dos enfermos. Com muitos testes e muita paciência cheguei à conclusão de que todos eles também têm desvios morais. – vai dizendo Simão a passos lentos.
-Como assim? – pergunta Teodoro.
-Fui dando a cada um doses bem medidas de incitações ao crime para que aparecessem esses desvios. Deixei que minha carteira caísse na frente deles por varias vezes. Deixei dinheiro em alguns cantos da casa.
-E? O que aconteceu? – perguntou Teodoro com ansiedade.
-No começo eles me devolveram a carteira, sem tirar um trocado para si. Mas com o passar do tempo, notei que ao devolverem faltavam sempre duas ou três notas. E por fim, não sobrou nada, tiravam tudo.
-Nossa! É difícil de acreditar nisso. Eles pareciam ser tão honestos.
-Já as notas que deixava espalhado por alguns lugares na casa sumiram todas. Não devolveram nenhuma.
-São todos eles corruptos!
-Mas espere. Não lhe contei o que passei a observar a seguir.
-Pois conte. – pediu o vendedor de ervas.
-Nos jantares, almoços e cafés da manhã percebi que uns foram boicotando os outros. Sempre um queria ter o lugar do outro na mesa, pois dizia que aquele era o melhor lugar. Queriam o melhor bife, o maior pão. Alguns chegavam a oferecer o dinheiro que haviam conseguido com meu teste apenas para ter direito a comida do outro.
-A Casa dos Espelhos acabou fazendo o contrário. Transformou os honestos em desonestos.
-Não. Não foi o contrário. – começou Simão parando para pensar a seguir. – Acabei de elaborar uma nova teoria. Veja bem.
-Fale.
-Todo homem nasce igual. Somente o meio é que os fazem diferentes. Sendo assim, alguns tiveram mais oportunidades que os outros. Ou seja, os que vieram primeiro para a casa já haviam passado por varias oportunidades de roubar, desviar dinheiro, de corromper e ser corrompido. Já esses que aqui estão ainda não haviam passado por isso.
-Não entendi. Explique melhor.
-Todo homem é corrupto. Todos são desonestos. Mas somente o meio em que vivem pode revelar isso.
-Ah! Por isso que no Brasil existem tantos políticos desonestos?
-Exato! Veja, somente com algumas oportunidades que dei todos eles revelaram seus desvios.
-Oh! Estamos perdidos.

(E aparecem os “enfermos”, um roubando a carteira do outro).

-Agora soltarei todos eles. Fracassei! Somente a teoria ficará. A humanidade esta perdida para todo o sempre. – diz Simão.

(Nas ruas as pessoas comentam)

-Aquele médico lunático! Ele é o grande culpado por estarmos sozinhos agora.
-O que faremos agora? Uma revolução?!
-Vamos à Casa dos Espelhos e a poremos no chão! E acabaremos também com aquele louco. Ele destruiu o resto da esperança que tínhamos.
-É. Isso, vamos!

(Teodoro entra, sozinho, no palco e começa a ouvir gritos. É o povo que marcha rumo à casa de Simão, mas o encontram pelo caminho)

- Vejam! Ele é amigo daquele impostor, charlatão! – grita um homem no meio da marcha.
- Sim já o vi diversas vezes andando com ele! – grita outro.
- Vamos pega-lo, ele também deve ser condenado. – grita um mais exaltado.
- Sim! Prendam-no! – grita todos.

(Na casa Simão conversa com sua mulher, quando Teodoro entra assustado na casa)

-Foi um trabalho perdido. Tanto tempo. E meu sonho de ver esse mundo mais justo e igual. Tudo está perdido.
-Não fique assim. Não é culpa sua que esse mundo seja assim. Você foi, na verdade, um herói. Olhe, estava vendo. Como a população fez questão de ajudar pagando para que você tratasse os bandidos, acumulamos muito dinheiro, agora temos que devolver. – diz a mulher mostrando o grande baú cheio de dinheiro.
-Sim. Devolveremos tudo.

(Teodoro entra)

-Simão, Simão! O povo está revoltado.
-Como assim Teodoro? – pergunta o doutor.
-Eles vêm pela rua, armados, querendo nosso sangue!
-Calma Teodoro, você está assustado, até agora não ouvi nenhum grito.
-Eles vêm! Ouça! Corram, fujam! – grita o homem e sai correndo

(Aqui começam os gritos, os três se assustam)

-Destruam a casa e capturem aquele impostor. Ele acabou com nossa esperança. – gritavam as pessoas na rua.
-O que está acontecendo? O que eles querem? – pergunta aterrorizada a mulher do doutor.
-Querem se vingar. Dizem que matei suas esperanças de ter um mundo melhor. É verdade, acabei com os poucos homens que ainda lutavam por um mundo mais justo. Eles têm razão. Eu destruí a esperança que tinham de ver esse mundo mais justo, mais humano. Eu vou. Entregarei-me. Devo pagar pelo que fiz! – diz Simão.
-Não. Deve haver outra solução. – suplicava a mulher.
-Não há solução! Eu vou!
-Há sim. Pensaremos em algo.
-Em que? Tudo está destruído.
-O dinheiro. Vamos entregar o dinheiro, eles pararão na hora. E ainda ficarão a seu lado.
-Você quer que eu compre minha liberdade com o dinheiro do povo? Que eu dê a eles o que é deles? – perguntou Simão olhando assombrado para sua esposa.
-O que há de mal nisso? Vamos. Eu entregarei. – disse a mulher arrastando o baú.
-Céus! Até ela?! – disse o homem já ajudando a esposa a carregar o baú.

(Os dois chegam até o povo e jogam o baú a seus pés)

-Vamos fale algo que os traga para seu lado. – incita a mulher.

Simão olha para ela, ainda em choque, mas logo começa:

-Vejam o que conseguimos. Conseguimos arrancar o dinheiro daqueles ratos corruptos. Eis aqui. Ao povo o que é do povo! – diz empolgado Simão Bacamarte.
-Ao povo o que é do povo! – repetiram os ex-revoltados. –E viva o doutor Simão Bacamarte! Viva! – continuaram alguns exaltados.

Baseada em O Alienista, obra de Machado de Assis.
Essa é uma adaptação para o teatro da faculdade, infelizmente não teve proveito, porém aí está, escrito, e viverá mais que a mim e a vocês.

Nenhum comentário: